– Só lhes faz bem, Alteza – rira-se o vizo-rei –, porque ficam com os braços mais compridos, o que lhes dará vantagem na guerra, quando empunharem a espada ou a lança.

Vestido, como sempre, de um saio32 de lã e boleta aberta do mesmo tecido, carapuça branca na cabeça e uma caninha na mão, D. Francisco distinguia-se pela simplicidade do trajo e nobreza da figura, a percorrer a obra cada dia, provendo a todos e tudo vigiando. Dava pressa aos homens, ansioso por terminar os panos das muralhas e as fortificações, não fosse o rajá mudar de aviso e suspender as obras, escondendo as bombardas que mandava trazer desmontadas das naus, durante a noite, para não criar alarme nos gentios e mouros que poderiam denunciá-lo a Huriabem.

A conclusão dos trabalhos, em tão breve tempo que aos próprios construtores admirara, fora festejada com procissão, muitos comeres, música e danças de moças gentias.

– E Iria? Que parte teve nessa história? – pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas, para murmurarem das invejas dos capitães e das lutas pelo poder. – Contai-nos, por vossa vida, o resto da sua lenda.

– De início, como vos disse antes, a vida parecia correr-lhes bem, mas quando começaram as guerras entre Afonso de Albuquerque e o bando de Cochim, Iria Pereira apartou-se de António Real ou ele dela.

O som de um apito interrompe-o e o grumete, que acaba de virar a ampulheta, diz com voz entoada:

– Uma hora passou,/ outra começou/ melhor há-de ser/ se Deus quiser. – E logo brada: – É meia-noite. A pé, grumetes, qu’é o quarto da modorra, a pé!

Por momentos a Cisne anima-se com o movimento dos matalotes que trocam de turno e alguns dos assistentes erguem-se com pena de deixar a história por acabar. Bento Castanho conforta-os:

– Vejo que se fez tarde, meus amigos. Ide dormir, que amanhã aqui estarei para contar a história de Iria, se houver quem ainda me queira ouvir.

Com muitos risos, bênçãos de bem haja!, Deus vos bendiga! e desejos de uma santa noite, todos se recolhem às câmaras, catres ou recantos onde têm lugar para estender a esteira ou a rede de dormir.

– Céu salteado, vento fresco e variado! – entoa ao longe uma voz, que muitos já não ouvem.

21 Rota, navegação.

22 Turcos de Constantinopla.

23 Povo de raça mongólica, aparentados com os tártaros, que se estabeleceu no Indostão, reino de Deli (da palavra persa mughal).

24 Geógrafo.

25 Homem que faz tratos comerciais, mercador.

26 Também denominado Nambeadora pelo cronista João de Barros.

27 Presentes diplomáticos, feitos pelas embaixadas aos reis, aos grandes senhores e principais autoridades.

28 Na Peregrinação, pagode tanto pode significar templo como representação do deus, o ídolo.

29 Com mais de um piso e soalho de madeira.

30 Antiga medida de comprimento equivalente a três palmos, cerca de sessenta e seis centímetros.

31 Folhas de uma certa palmeira que serviam para a cobertura dos edifícios.

Só as casas dos reis e os templos podiam ser cobertos de telha.

32 Saio – camisa até aos joelhos, de mangas largas, usada pelas classes baixas.

Quando falares, cuida que tuas palavras sejam melhores que o silêncio

(hindu)

Carta de Afonso de Albuquerque a el-rei D. Manuel:

Senhor: Vossa Alteza me culpa, me culpa, me culpa em algumas cousas de cá da Índia, e creio que será por má informação que vos de mim darão algumas pessoas, com inveja e dor de meus feitos e meus serviços.

Os que vos estas cousas escrevem, não andam em minha companhia, nem me vêem o rosto, nem são companheiros em meus trabalhos, perigos e fadigas, nem vestem as armas, mas querem ganhar autoridade em vos escreverem mil enganos e falsidades; pronosticam e profetizam, falam com feiticeiras que lhes digam o que está por vir, e ajuntam toda essa massa, de que fazem esse pastel que lá mandam a vossalteza cada ano e não vos deixam tomar verdadeiro assento nas cousas de vosso serviço, nem determinar o caminho que quereis que leve o negócio da Índia.

Digo-vos, senhor, isto, porque se bem olhardes vossos regimentos e determinações, cada ano vem um contrairo ao outro, e cada ano fazeis uma mudança e haveis novo conselho, e a Índia não é o castelo da Mina, para cada ano bulirdes com ela, porque há nela muito grandes reis e senhores que s’esforçam a vos defender que não segureis vosso estado nela, nem vos façais forte na terra, nem lhe ganheis os lugares principais; e estão confiados que haveis de leixar a Índia

E vossalteza ajuda-os a seu propósito, porque uma hora pondes um emplastro para este feito vir a furo, outra hora lhe pondes defensivos que não crie matéria; e tanto pode vossalteza ir por este caminho, que dareis com todo feito no chão.

De Cananor ao primeiro dia de Dezembro de 151333.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже