Passavam já três relógios do quarto da prima34 quando Bento Castanho recomeça a saga de Iria Pereira e Fernão Mendes semicerra os olhos e deixa-se ir, no sabor das palavras do narrador, ao encontro do passado e daquela valente mulher, para lhe imaginar a vida e a luta em Cochim, longe da família que a trouxera ao mundo e da terra onde deixara as suas raízes.
Iria Pereira tomara a longa navegação do reino para a Índia, sete anos antes, como castigo e expiação dos seus pecados, sofrendo sem um queixume um terrível martírio durante mais de sete negregados meses escondida na S. Jerónimo, a nau de D. Francisco de Almeida, o vizo-rei da Índia. Muitos homens fortes haviam sucumbido às agruras da infernal viagem e só por milagre da misericordiosa Santa Iria, sua protectora, é que ela não morrera nem tivera um desmancho, encafuada num buraco malcheiroso, para não denunciar a sua presença, contando apenas com a ajuda do primo, presa de terríveis vagados que ora a deixavam prostrada, como desacordada, ora a faziam botar a comida e o estômago pela boca, mareada de morte.
O último mês de viagem – Outubro de mil quinhentos e cinco –, coincidira com o fim da sua prenhez e, apesar do incómodo peso e do calor, fora menos penoso do que os anteriores. Por terem partido de Lisboa em Novembro, sofrera o primeiro Inverno quase até Cabo Verde, logo seguido de um Verão de grandes calmas, ao passarem a linha equinocial; contudo, fora muito pior o segundo Inverno, cerca do cabo da Boa Esperança, quando nevou no dia de S. João e seguintes, com tanta força que os grumetes passavam horas a lançar a neve dos navios às pazadas. O vizo-rei e os demais fidalgos não saíam dos seus aposentos, assando-se aos braseiros, por ser menor o perigo do fogo, e os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir35! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés.
Depois adviera medonha tempestade quando, para fugir do frio, se tinham acercado de terra: ondas altíssimas pareciam querer engolir as naus e, no seu esconderijo, sobrepondo-se ao bramido do mar e ao estrondear da trovoada, chegavam-lhe os gritos e rogos que os matalotes lançavam aos céus, encomendando a salvação da sua alma a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora, e ela orara também em silêncio, à espera da morte. As suas vozes haviam chegado aos céus, porque o temporal amansara antes de os navios se desfazerem e serem engolidos pelos mares.
Nesse Inverno rigorosíssimo muitos homens caíram enfermos de prioris36 e febres e, juntamente com a esposa java do língua veneziano, o vigário Diogo Pereira, seu parente, e os padres da sua companhia, ela oferecera-se para ajudar o mestre barbeiro e sangrador a cuidar dos enfermos, entre os quais se achava o seu homem. Fosse por ser a companheira de António Real, que era da privança do vizo-rei, ou quiçá pelos seus bons serviços e dedicação aos doentes, ninguém a denunciara, permitindo-lhe até uma maior liberdade de movimentos durante o resto da viagem.
Após a conquista de Quíloa, a S. Jerónimo ecoara com os risos e brados dos homens a festejarem ruidosamente a vitória e o saque, a que se seguiram os gritos e prantos, logo abafados com pancadas, promessas ou ameaças, das cativas tomadas por prémio e galardão dos vencedores, que nelas cevavam o cio e o jejum de muitos meses sem conversação com mulheres, em luta diária com a morte. Feitas as pazes com el-rei, D. Francisco obrigara os homens, não sem muitos protestos e resistência, a libertar todas as mulheres e a restituí-las às suas famílias. Com a cidade segura, enquanto os portugueses faziam a fortaleza, Iria pudera desembarcar por mais de uma vez, andar pela praia e pelas ruas em companhia de António, vestida com um saio largo de homem, sentindo já o filho de ambos a germinar no seu ventre.
Com a conquista e destruição de Mombaça, Iria sentira-se no céu, em vez do inferno que até então fora para si aquela prisão do mar, como chamavam às naus os que lhes sofriam os horrores da pousada. O vizo-rei mandara anunciar com pregão em todos os navios que, das cativas ganhas no saque, os homens só poderiam levar para a Índia as que tivessem menos de doze anos, sendo obrigados a desembarcar as restantes mulheres, sob pena de grandes castigos em caso de desobediência. Com muitas crianças na S. Jerónimo, de serviço aos fidalgos e homens baixos – dando azo a cenas ainda mais pungentes e brutais do que as de Quíloa –, Iria metera-se no aposento de António, com as duas meninas mouras que ele trouxera para bordo e assim fizera o resto da viagem como se fora sua esposa, sem que ninguém lho estranhasse ou defendesse.