Mem Taborda e António Anriquez, que quiçá não esperavam aquilo dele, se lhe lançaram aos pés com os olhos cheios de água, e querendo com palavras dar-lhe as gra
ças pela mercê que lhes fazia, o ímpeto das lágrimas lho impediu, de maneira que se tornou ali a renovar um lastimoso e triste pranto pelos mortos que ali estavam já enterrados, e com a terra que tinham em cima de si, ainda banhada pelo seu fresco sangue. Os dois começaram logo a entender em cobrarem sua fazenda, e foram por toda a ilha com cerca de cinquenta ou sessenta moços que os senhores deles lhes emprestaram, a recolher a seda molhada que ainda estava a enxugar, de que todas as árvores estavam cheias, fora mais de duas casas em que estava a enxuta, e a mais bem acondicionada, que como eles tinham dito eram cem mil taéis de emprego, no que tinham parte mais de cem homens, tanto dos que ficavam em Liampó, como de outros que estavam em Malaca, a quem se ela lá mandava. E a fazenda que estes dois homens ainda recolheram valeria de cem mil cruzados para cima, porque a mais, que podia ser a terça parte, se perdeu na podre, na molhada, na quebrada, e na furtada, de que nunca se soube parte.
Recolhendo-se após isto, António de Faria, para a sua embarcação, não atendeu aquele dia a mais que visitar e prover os feridos, e agasalhar os soldados, por ser já quase noite; e quando ao outro dia foi manhã clara, foi ao junco grande que tinha tomado, o qual estava ainda cheio de corpos mortos do dia anterior, e mandando-os lançar todos ao mar, da maneira que estavam, só ao perro do Coja Acém, por ser mais honrado e merecer mais fausto e cerimónia nas suas exéquias, o mandou tomar assim vestido e armado como ainda jazia, e feito em quartos o mandou também lançar ao mar, onde a sepultura que então teve o seu corpo, por assim o merecer sua pessoa e suas obras, foram buchos de lagartos, de que andava grande quantidade a bordo do junco, à carniça dos mortos que se lançavam, e ao qual António de Faria, em lugar de oração que lhe rezava pela alma, disse:
- Andar, muiti eramá para esse inferno, onde a vossa enfuscada alma agora estará gozando dos deleites de Mafamede, como ontem com grandes brados pregáveis a essoutros cães tais como vós.
E fazendo logo vir perante si todos os escravos, cativos, tanto sãos como feridos, que trazia em sua companhia, mandou também chamar os senhores deles, e a todos lhes fez uma fala de homem bom cristão, como na verdade o era, em que lhes pediu que pelo amor de Deus tivessem todos por bem lhes darem liberdade, da maneira que ele lhes tinha prometido antes da peleja, porque ele de sua fazenda lhes satisfaria muito à sua vontade; ao que todos responderam que pois sua mercê assim o havia por bem,
eles eram muito contentes, e os haviam como forros e livres daquele dia para sempre. E disto se fez logo um assento, em que todos assinaram, porque por então se não pôde fazer mais, e depois em Liampó lhes deram a todos suas cartas de alforria. Após isto, se fez inventário da fazenda que Iiquidamente se achou, tirando a que se deu aos portugueses e foi avaliada em cento e trinta mil taéis em prata do Japão e fazendas limpas, como foram cetins, damascos, seda, retrós, tafetás, almíscar e porcelanas de barça muito finas, porque então se não fez mais receita do mais que este corsário tinha roubado por toda aquela costa de Sumbor até ao Fuchéu, onde havia passante de um ano que continuava.
Como António de Faria 6e partiu de6te rio Tintau para Liampó, e de um de6venturado 6uceHO que teve na viagem
Depois de haver já vinte e quatro dias que António de Faria estava neste rio de Tinlau, dentro dos quais os feridos todos convalesceram, se partiu para Liampó onde levava determinado invernar, para daí na entrada do Verão cometer a viagem das minas de Ouãogeparu, como tinha assentado com o Ouiay Panjão que levava em sua companhia.