Passando assim toda aquela noite nus e descalços e escalavrados, e quase esbofados do grande trabalho que tínhamos levado, prouve a Nosso Senhor que quando a manhã começou a clarear, o vento foi sendo algum tanto menos, com o que o junco ficou mais quieto, ainda que já estivesse assentado sobre a ponta da coroa do baixo, e com treze palmos de água dentro, e os homens todos estivessem pegados em cordas da banda de fora, para que os mares grandes que quebravam em cima no costado os não afogassem ou lançassem sobre os penedos, como já tinham feito a dez ou doze que não se preveniram disto; e quando foi o dia bem claro, quis Nosso Senhor que nos enxergou o junco de Mem Taborda e António Anriquez, que toda a noite tinha pairado em árvore seca, com grandes jangadas de madeira à popa à charachina, que os seus oficiais lhe inventaram para poderem sustentar melhor o pairo, e como houve vista de nós nos veio logo demandar, e em chegando a nós nos arremessaram muita soma de paus atados a cordas, para que nos pegássemos neles, o que nós logo fizemos, e nisto se gastou quase uma hora com assaz de trabalho de todos, pelo desmancho e desordenada cobiça que cada um tinha de ser o primeiro que se salvasse, o que foi causa de se afogarem vinte e duas pessoas, de que cinco foram portugueses, que António de Faria mais sentiu que toda a perda do junco e da fazenda de prata, ainda que não fosse tão pequena que não passasse de cem mil taéis, só em fazenda de pl’ata, porque a maior parte das presas que se tomaram e do que se tomou ao Coja Acém se metera naquele junco em que andava António de Faria, por ser maior e melhor, e em que parecia que corria menos perigo que nas outras embarcações que não eram tão boas nem tão seguras.

Depois que com assaz de trabalho e risco de nossas vidas nos recolhemos ao junco de Mem Taborda, se gastou este dia todo em prantos e lamentações por este triste e desventurado sucesso, sem se saber parte da mais companhia; mas prouve a Nosso Senhor que sobre a tarde houvemos vista de dois barcos, que de um bordo ao outro faziam as voltas tão curtas, como que pairavam o tempo, por onde conhecemos que eram da nossa armada, e por ser quase noite não pareceu bem ir até elas, por algumas razões que para isso se deram, mas fazendo-lhes farol, nos responderam logo a nosso propósito, e sendo já meio quarto da lua passado, chegaram a nós e depois de fazerem suas salvas assaz tristemente, perguntaram pelo capitão

-mor e pela mais companhia, ao que então se respondeu que quando fosse manhã lho diriam, e que se afastassem dali até que o dia mais aclarasse, porque andavam ainda os mares tão grossos que poderia acontecer algum desastre. Logo que a estrela de alva apareceu e a manhã come

çou a ser clara vieram dois portugueses do junco de Quiay Panjão, os quais vendo António de Faria da maneira que estava metido no junco de Mem Taborda, porque o seu já era perdido, depois que souberam o sucesso da sua desventura, eles também contaram do seu trabalho que quase foi igual ao nosso, em que disseram que uma refrega de vento lhes levara três homens ao mal’ e os lançara tão longe como quase um tiro de pedra, coisa decerto nunca vista nem ouvida, E também contaram da maneira que se perdera o junco pequeno com cinquenta pessoas, e as mais delas ou quase todas cristãs, das quais sete foram portuguesas, em que entrara Nuno Preto, capitão dele, homem honrado e de grande espírito, como tinha bem mostrado nas adversidades passadas, o que António de Faria sentiu muito, Neste tempo chegou também uma das lanteas de que até então se não sabia parte, e contou também de si assaz de trabalho, e certificou que a outra quebrara as amarras com o tempo e fora dar à costa, e que à sua vista se fizera em pedaços na praia, e que de toda a gente se não salvaram mais que só treze pessoas, cinco portugueses e oito moços cristãos, os quais a gente da terra levara cativos para um lugar que se chamava Nouday, De maneira que nesta desventurada tormenta se perderam dois juncos e uma lorcha ou lantea, em que morreram passante de cem pessoas, onde entraram onze portugueses, fora os cativos.

E a perda de tudo, tanto fazenda, como prata, peças ricas, embarcações, artilharia, armas, mantimentos e munições, foi avaliada em passante de duzentos mil cruzados, com o que o capitão e os soldados todos ficaram sem terem de seu mais que o que tinham vestido. E estas pancadas tais tem esta costa da China, mais que todas as das outras terras, pelo que ninguém pode navegar seguro nela um só ano, que lhe não aconteçam desastres, se com as conjun

ções das luas cheias se não meter nos abrigos dos portos, que tem muitos e muito bons, onde sem nenhum receio se pode entrar, porque toda é limpa, tirando somente Lamau e Sumbor, que têm uns baixos a cerca de meia légua das barras da parte do sul.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже