– Não, não, ele o encontrou. Não sabemos quem é o dono. Peço-lhe que o observe, não como um chapéu maltratado, mas como um problema intelectual. Primeiro, deixe-me dizer-lhe como veio parar aqui. Chegou na manhã de Natal, juntamente com um gordo ganso que neste momento, não tenho a menor dúvida, está assando no fogão de Peterson. Os fatos são os seguintes: por volta das quatro horas do dia de Natal, Peterson, que, como você sabe, é um camarada muito honesto, voltava para casa de alguma comemoração, seguindo pela Tottenham Court Road. À sua frente ele viu, à luz das lâmpadas de gás, um homem alto, cambaleando ligeiramente, e carregando um ganso branco jogado sobre o ombro. Quando chegou à esquina da Goodge Street, começou uma briga entre esse estranho e um grupinho de desordeiros. Um destes derrubou o chapéu do homem, que ergueu a bengala para se defender e, girando-a acima da cabeça, quebrou a vitrina atrás dele. Peterson havia corrido para proteger o estranho de seus assaltantes, mas o homem, chocado ao ver que quebrara a vitrina e vendo uma pessoa de uniforme, que parecia um policial vindo em sua direção, deixou cair o ganso e saiu correndo, desaparecendo no labirinto de ruas estreitas atrás da Tottenham Court Road. Os desordeiros também fugiram quando Peterson chegou, de modo que ficou com a posse do campo de batalha e também dos despojos da vitória, isto é, este chapéu surrado e um ganso de Natal impecável.

– Que, evidentemente, devolveu ao legítimo dono?

– Meu caro amigo, aí está o problema. É verdade que havia um pequeno cartão amarrado à perna esquerda da ave com a inscrição “Para a sra. Henry Baker”, e também é verdade que as iniciais “H. B.” eram bem legíveis no forro do chapéu. Mas há milhares de Bakers e centenas de Henry Bakers nesta cidade, e não é nada fácil devolver algo perdido a algum deles.

– Então, o que foi que Peterson fez?

– Trouxe tanto o chapéu quanto o ganso para mim na manhã de Natal, sabendo que até o mais insignificante problema me interessa. Guardamos o ganso até hoje de manhã, quando ficou evidente que, apesar do tempo frio, seria melhor comê-lo sem demora. Seu descobridor o levou, então, para cumprir o destino final de qualquer ganso, enquanto eu continuei com o chapéu do cavalheiro desconhecido que perdeu seu jantar de Natal.

– Não pôs um anúncio nos jornais?

– Não.

– Então, que pista você pode ter quanto à sua identidade?

– Só o que pudermos deduzir.

– Do chapéu?

– Exatamente.

– Mas está brincando. O que pode deduzir desse velho chapéu de feltro?

– Aqui está minha lente. Conhece meus métodos. O que pode perceber da personalidade do homem que usou este objeto?

Peguei o chapéu e virei-o de todos os lados. Era um chapéu preto do feitio comum, arredondado, e extremamente gasto. O forro era de seda vermelha, mas estava muito desbotado. Não havia marca do fabricante; mas, como Holmes comentara, as iniciais “H. B.” estavam rabiscadas em um lado. A aba estava furada para a inserção de um elástico para prender sob o queixo, mas não havia elástico nenhum. De resto, estava rasgado, extremamente empoeirado e manchado em diversos lugares, embora parecesse que tinham sido feitas algumas tentativas de esconder as manchas com tinta de escrever.

– Não consigo ver nada – disse, devolvendo-o a meu amigo.

– Pelo contrário, Watson, você pode ver tudo, mas você não raciocina a partir do que vê. É tímido demais em tirar suas conclusões.

– Então, por favor, diga-me, o que você deduz desse chapéu?

Pegou-o e olhou-o daquela sua maneira introspectiva. – Talvez seja menos sugestivo do que poderia ser – comentou –, mas, mesmo assim, há algumas deduções que são muito claras e outras que representam pelo menos uma grande probabilidade. É óbvio que o homem era um intelectual e também que estava muito bem de vida nos últimos três anos, embora atualmente esteja passando por dificuldades. Era um homem previdente, mas hoje não é tanto, demonstrando uma regressão moral que, combinada com a decadência financeira, parece indicar alguma má influência, provavelmente a bebida, agindo sobre ele. Isso talvez explique também o fato óbvio de que sua mulher não mais o ama.

– Meu caro Holmes!

– Entretanto, ele conserva um certo grau de dignidade – continuou, ignorando minha exclamação. – É um homem de vida sedentária, sai muito pouco, está inteiramente fora de forma, é de meia-idade, tem cabelos grisalhos que cortou há poucos dias e que trata com loção de extrato de limão. Estes são os fatos mais evidentes que se pode deduzir a partir desse chapéu. A propósito, também é muito pouco provável que haja gás encanado em sua casa.

– Você deve estar brincando, Holmes.

– De jeito nenhum. Será possível que mesmo agora, depois de eu lhe apresentar essas conclusões, você não consiga ver como cheguei a elas?

– Estou convencido de que sou muito burro, mas tenho de confessar que não consigo acompanhar seu raciocínio. Por exemplo, como deduziu que esse homem era um intelectual?

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