– Exatamente, no dia 22 de dezembro, cinco dias atrás. John Horner, um bombeiro, foi acusado de tê-la roubado da caixa de jóias da senhora. A evidência contra ele era tão forte que o caso foi encaminhado ao tribunal. Creio que tenho um artigo sobre isso aqui. – Remexeu na pilha de jornais olhando as datas, e finalmente puxou um, dobrou-o e leu o seguinte:
– Hum! Chega do que aconteceu no Tribunal – disse Holmes, pensativo, deixando de lado o jornal. – O que temos de esclarecer agora é a seqüência de acontecimentos que vão de um estojo de jóias roubado ao papo de um ganso na Tottenham Court Road. Observe bem, Watson, que nossas pequenas deduções assumiram de repente um aspecto muito mais importante e muito menos inocente. Aqui está a pedra; a pedra veio do ganso, e o ganso veio do sr. Henry Baker, o cavalheiro com o velho chapéu e todas as outras características com as quais tanto enchi sua paciência. De modo que agora precisamos nos empenhar seriamente em encontrar esse cavalheiro e verificar qual foi o papel dele nesse mistério. Para isso, devemos tentar primeiro o meio mais simples, e este, sem dúvida alguma, consiste em publicar um anúncio em todos os jornais vespertinos. Se isso falhar, terei de recorrer a outros meios.
– O que vai dizer?
Dê-me um lápis e aquele pedaço de papel. Bem, vejamos:
Encontrados na esquina da rua Goodge um ganso e um chapéu de feltro preto. O sr. Henry Baker pode reaver os dois apresentando-se às 18:30h, esta noite, na Baker Street, no 221B.
Está bem claro e conciso.
– Muito. Mas será que ele vai ver esse anúncio?
– Bem, certamente vai ficar de olho nos jornais, já que, para um homem pobre, a perda foi grande. Evidentemente, ele ficou tão amedrontado por ter quebrado a vitrina e pelo aparecimento de Peterson que só pensou em fugir. Mas depois deve ter se arrependido amargamente do impulso que o fez deixar cair a ave. Além disso, a menção de seu nome fará com que ele veja o anúncio, pois todas as pessoas que o conhecem vão chamar sua atenção. Aqui está, Peterson, vá depressa à agência e mande botar isso nos jornais da noite.
– Quais, senhor?
– Oh, no e qualquer outro de que você se lembre.
– Sim, senhor. E a pedra?
– Ah, sim, vou ficar com a pedra. Obrigado. E olhe aqui, Peterson, compre um ganso na volta e deixe aqui comigo, pois precisamos de um ganso para devolver a esse cavalheiro, em lugar daquele que sua família está devorando neste momento.
Quando o porteiro saiu, Holmes pegou a pedra e a segurou contra a luz. – É realmente linda – disse. – Olhe só como brilha e cintila. Claro que é um núcleo e foco de crime. Todas as boas pedras são. Elas são as iscas preferidas do diabo. Nas pedras maiores e mais antigas, cada faceta deve representar um feito sangrento. Esta pedra não tem ainda vinte anos. Foi encontrada nas margens do rio Amoy, no sul da China, e tem todas as características do rubi, exceto o fato de que é azul em vez de vermelho. Apesar de ser nova, esta pedra já tem uma história sinistra. Houve dois assassinatos, um episódio com ácido sulfúrico, um suicídio e vários roubos, tudo por causa desses poucos gramas de carbono cristalizado. Quem poderia imaginar que um brinquedo tão lindo seria o caminho da forca e da prisão? Vou trancá-lo em meu cofre e mandar um bilhete à condessa dizendo que está em meu poder.
– Você acha que o Horner é inocente?
– Não sei ainda.
– Bem, então acha que o outro, o Henry Baker, tem alguma coisa a ver com esse negócio?
– Acho muito mais provável que Henry Baker seja completamente inocente e não tivesse a menor idéia de que a ave que carregava valesse muito mais do que se fosse feita de ouro maciço. Mas isso eu vou verificar por meio de um teste muito simples, se tivermos uma resposta ao nosso anúncio.
– E não pode fazer nada até lá?
– Nada.
– Nesse caso, vou continuar minhas visitas profissionais. Mas voltarei à noite, na hora que você mencionou, pois gostaria de ver a solução dessa história tão confusa.
– Será um prazer tê-lo aqui. O jantar será às 19 horas. Creio que é uma galinha-d’angola. Por falar nisso, considerando o que aconteceu, acho melhor mandar a sra. Hudson examinar seu papo.
Atrasei-me com um paciente e já passava das 18:30h quando voltei a Baker Street. Ao me aproximar da casa, vi um homem alto, de boné escocês, com um casaco abotoado até o queixo esperando diante da porta, no semicírculo de luz lançado através da clarabóia. No momento em que eu chegava, a porta se abriu e subimos juntos para os aposentos de Holmes.
– Sr. Henry Baker, sem dúvida – disse ele, levantando-se da poltrona e recebendo o visitante com grande cordialidade. – Sente-se aqui, perto da lareira, sr. Baker. A noite está muito fria e estou vendo que sua circulação está mais habituada ao verão que ao inverno. Ah, Watson, você chegou bem na hora. Esse chapéu é seu, sr. Baker?
– Sim, senhor, sem dúvida nenhuma.