- "Há algum tempo comprei uma pequena propriedade, muito pequena, a uns doze quilômetros de Reading. Tive a sorte de descobrir que havia um depósito de greda em um dos meus campos. Ao examiná-lo, entretanto, vi que esse depósito era relativamente pequeno e fazia ligação com dois muito maiores, um à direita e outro à esquerda, ambos nas propriedades de meus vizinhos. Esses bons homens não sabiam absolutamente que suas terras continham o que era equivalente a uma mina de ouro. Naturalmente, meu interesse seria comprar suas terras antes que descobrissem seu verdadeiro valor, mas, infelizmente, não tinha capital para isso. Compartilhei o segredo com alguns amigos meus e eles sugeriram que começássemos a trabalhar secretamente em nosso pequeno depósito e assim ganharíamos o suficiente para comprar as terras dos vizinhos. É isso que vimos fazendo por algum tempo e, para auxiliar as operações, fizemos uma prensa hidráulica. Essa prensa, como já expliquei, não está funcionando bem e queremos sua opinião. Contudo, guardamos nosso segredo zelosamente e se fosse sabido que temos engenheiros hidráulicos vindo à nossa casa isso despertaria suspeitas e se os fatos viessem à tona, seria adeus à possibilidade de adquirir essas terras e realizar nossos planos. É por isso que fiz o senhor prometer que não dirá a ninguém que vai hoje à noite. Espero que tenha explicado tudo claramente".

- "Compreendo" respondi. "A única coisa que não entendi bem é qual é a utilidade de uma prensa hidráulica na extração de greda de prisioneiro, que, pelo que sei, é escavada da terra como pedra de uma pedreira".

- "Ali!" ele disse displicentemente. "Temos nosso processo especial. Comprimimos a terra em tijolos para poder removê-los sem revelar o que contêm. Mas isso é mero detalhe. Contei-lhe toda nossa história, Mr. Hatherley, e demonstrei que confio no senhor". Ergueu-se enquanto falava. "Vou esperá-lo, então, em Eyford. Às 1 1h15m."

- "Estarei lá com certeza".

- "Nem uma palavra a ninguém." Lançou-me um longo olhar inquisitivo e, com um aperto de mãos, saiu apressado da sala.

- Bem, quando pensei em tudo isso com calma fiquei, como devem imaginar muito espantado com essa súbita incumbência que havia recebido. Por um lado, é claro, estava contente, pois os honorários eram pelo menos dez vezes mais do que teria pedido se fosse eu que tivesse feito o preço e era possível que esse serviço levasse a outros. Por outro lado, a expressão e a maneira de meu cliente causaram uma impressão muito desagradável em mim e não achei que a explicação sobre a greda de prisioneiro fosse razão suficiente para essa visita à meia-noite e para justificar sua ansiedade de que eu não dissesse nada a ninguém. Mas apesar disso, pus de lado meus receios, fiz uma lauta refeição, fui para Paddington e comecei minha viagem, obedecendo fielmente à recomendação de não dizer nada a ninguém.

- Em Reading mudei não só de vagão, mas também de estação. Consegui pegar, entretanto, o último trem para Eyford e cheguei à pequena e escura estação depois de onze horas. Fui o único passageiro a saltar lá e não havia ninguém na plataforma, exceto um porteiro sonolento, com uma lanterna. Quando pelo portão, entretanto, encontrei meu conhecido da manhã esperando no escuro, do outro lado. Sem dizer uma palavra, pegou meu braço e levou-me rapidamente para um carro, cuja porta estava aberta. Fechou as janelas dos dois lados, deu urnas pancadinhas na madeira e o carro se arremessou à frente a toda velocidade.

- Um cavalo só? - perguntou Holmes.

- Só um.

- Notou de que cor era?

- Sim, vi à luz das lanternas laterais quando entrava no carro. Era um cavalo baio.

- Com aparência cansada?

- Não, descansado e vigoroso.

- Obrigado. Desculpe a interrupção. Por favor, continue sua história. É muito interessante.

- Lá nós fomos pelo menos por uma hora. 0 Coronel Lysander Stark havia dito que eram somente uns dez quilômetros, mas achei, pela velocidade em que andávamos e o tempo que levamos que deviam ser pelo menos uns quinze. Sentou-se a meu lado em silêncio todo o tempo e vi mais de uma vez, quando olhei para ele, que estava me olhando com grande intensidade. As estradas pareciam não ser muito boas naquela região, pois sacudimos e balançamos de um lado para o outro todo o tempo. Tentei olhar pelas janelas para ver onde estávamos, mas o vidro era fosco e não pude ver nada, só a mancha de uma luz ocasional. De vez em quando dizia alguma coisa para quebrar a monotonia da viagem, mas o Coronel respondia em monossílabos; e a conversa morria. Finalmente os solavancos da estrada cederam lugar a um caminho de cascalho e o carro parou. 0 Coronel Lysander Stark saltou e, quando o segui, puxou-me rapidamente para uma varanda que se abria à nossa frente. Saímos, por assim dizer, diretamente do carro para o hall de entrada, de forma que não pude nem ver a frente da casa. No minuto em que transpus a soleira da porta, esta se fechou atrás de nós e ouvi o ruído das rodas do carro que se afastava.

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