- Fiquei tão aterrorizada que não sei o que fiz. Suponho que passei por ele correndo e fui para meu quarto. Não me lembro de nada até me encontrar na cama, tremendo dos pés à cabeça. Então pensei no senhor, Sr. Holmes. Não podia continuar a morar lá sem alguma ajuda. Estava com medo da casa, do homem, da mulher, dos empregados, até da criança. Todos me pareciam horríveis. Se conseguisse trazer o senhor aqui, tudo estaria bem. Naturalmente, podia ter fugido da casa, mas minha curiosidade era tão forte quanto meu medo. Tomei logo uma decisão. Ia lhe mandar um telegrama. Coloquei o chapéu e o casaco, fui até o telégrafo, que fica quase a um quilômetro da casa e voltei me sentindo muito melhor. Senti uma dúvida terrível quando me aproximei da porta de que o cão podia estar solto, mas me lembrei que Toller havia bebido tanto que estava inconsciente e sabia que ele era o único que tinha alguma influência sobre a criatura selvagem, ou que se aventuraria a soltá-la. Entrei sem que nada me acontecesse e fiquei acordada metade da noite de alegria, sabendo que ia vê-lo. Não tive problema em obter permissão para vir a Winchester hoje de manhã, mas tenho de voltar antes das três, pois o Sr. e a Sra. Rucastle vão sair para fazer uma visita e só voltarão à noite e tenho de tomar conta da criança. Essas são as minhas aventuras, Sr. Holmes, e ficaria muito grata se me dissesse o que tudo isso significa e, acima de tudo, o que devo fazer.

Holmes e eu ouvíramos essa extraordinária história estupefatos. Meu amigo se levantou e andou de um lado para o outro com as mãos nos bolsos e uma expressão profundamente grave.

- Toller ainda está bêbedo? - perguntou.

- Sim. Ouvi a mulher dele dizer à Sra. Rucastle que não podia fazer nada com ele.

- Isso é bom. E os Rucastles vão sair hoje à tarde?

- Sim.

- Existe um porão com uma boa fechadura?

- Sim, a adega.

- A senhora agiu, aparentemente, em tudo isso como uma moça muito corajosa e sensata, Srta. Hunter. Acha que pode realizar mais uma proeza? Não lhe pediria isso se não achasse que é uma mulher excepcional.

- Posso tentar. O que é?

- Iremos a Faias Roxas às sete horas, meu amigo e eu. Os Rucastles já teriam saído a essa hora e Toller estará, espero, incapacitado. Só resta a Sra. Toller, que poderá dar o alarma. Se pudesse mandá-la à adega, sob algum pretexto, e trancá-la à chave facilitaria imensamente tudo.

- Isto posso fazer.

- Excelente! Examinaremos cuidadosamente o assunto. Naturalmente, só há uma explicação admissível. A senhora foi levada lá para se fazer passar por outra pessoa, e essa pessoa está presa no quarto trancado. Isso é óbvio. E quanto à identidade da prisioneira, não tenho dúvidas de que se trata da filha, Srta. Alice Rucastle, que, se estou bem lembrado, diziam tinha ido para a América. A senhora foi escolhida, evidentemente, porque se parecia com ela em altura, corpo e cor de cabelo. O dela fora cortado, provavelmente por alguma doença e portanto o seu tinha de ser cortado também. Por um acaso a senhora encontrou o cacho de cabelo dela. O homem na estrada era, sem dúvida, um amigo dela, talvez seu noivo e certamente como a senhora usava o vestido da moça e se parecia tanto com ela, ficou convencido pelas suas gargalhadas, quando a via, e depois pelo seu gesto, que a Srta. Rucastle estava perfeitamente feliz e que não mais desejava suas atenções. O cão é solto à noite para evitar que ele tente se comunicar com ela. Até aí está tudo claro. O que há de mais sério nesse caso é o gênio da criança.

- Que diabos tem isso a ver com o resto? - exclamei.

- Meu caro Watson, você como médico está sempre procurando entender as tendências de uma criança pelo estudo dos pais. Não vê que o inverso é igualmente válido? Freqüentemente começo a compreender a personalidade dos pais pelo estudo de seus filhos. O gênio dessa criança é incrivelmente mau e cruel, uma crueldade sem razão e quer herde isso de seu sorridente pai, como suspeito, ou de sua mãe, isso é um mau agouro para a pobre moça que está em suas mãos.

- Estou certa que o senhor tem razão, Sr. Holmes - exclamou nossa cliente. - Estou me lembrando de mil coisas que confirmam que o senhor encontrou a solução. Oh, não devemos perder um segundo em levar algum auxílio a essa pobre criatura.

- Devemos ser circunspectos, pois estamos lidando com um homem muito astuto. Não podemos fazer nada até às sete horas. Aí estaremos lá com a senhora e não levará muito tempo para resolvermos o mistério.

Cumprimos nossa palavra, pois às sete em ponto chegamos a Faias Roxas, deixando o carro em uma hospedaria na estrada. O grupo de árvores, com suas folhas escuras brilhando como metal polido à luz do sol poente, era suficiente para distinguir a casa, mesmo que a Srta. Hunter não estivesse na porta, sorrindo.

- Conseguiu? - perguntou Holmes.

Pancadas altas vieram de algum lugar embaixo da casa.

- É a Sra. Toller presa na adega - disse, - O marido está roncando no chão da cozinha. Aqui estão as chaves dele, que são duplicatas das do Sr. Rucastle.

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