– Temo que eu me revele demais ao dar explicações. Resultados sem causas são bem mais impressionantes. Está disposto a ir a Birmingham?

– É claro. Qual é o caso?

– Você saberá no trem. Meu cliente está esperando lá fora numa carruagem. Pode sair agora?

– Um momento.

Rabisquei um bilhete para o meu vizinho, fui explicar o caso à minha mulher e encontrei-me com Holmes no patamar de entrada.

– Seu vizinho é médico? – perguntou, indicando com a cabeça a placa de bronze.

– Sim. Comprou a clínica, assim como eu.

– Clientela antiga?

– Tão antiga quanto a minha. Os dois consultórios foram abertos logo que a casa foi construída.

– Neste caso, você ficou com a melhor parte.

– Creio que sim. Mas como é que você sabe?

– Pelos degraus, meu rapaz. Os seus estão muito mais gastos que os dele... O cavalheiro que está na carruagem é meu cliente e se chama Hall Pycroft. Permita que o apresente. Chicoteie o cavalo, cocheiro, pois temos o tempo exato para pegar o trem.

A pessoa diante da qual me sentei era um rapaz de boa estatura, rosto corado, expressão franca, honesta, e com um bigodinho louro. Usava uma cartola lustrada e um sóbrio terno preto, que lhe davam a aparência exata daquilo que era – um esperto homem da cidade pertencente à classe denominada mas que fornece excelentes regimentos de voluntários e gera uma quantidade maior de bons atletas e desportistas do que qualquer outro grupo destas ilhas. Seu rosto redondo e vermelho era naturalmente animado, mas os cantos da boca pareceram-me inclinados para baixo, numa preocupaçãoquase cômica. Só quando nos encontrávamos num vagão deprimeira classe e a caminho de Birmingham é que soube qual o problema que o levara a procurar Sherlock Holmes.

– Dispomos de setenta minutos – observou Holmes. – Sr. Hall Pycroft, quero que conte ao meu amigo a sua interessante experiência exatamente como me contou e com maiores detalhes, se possível. Será útil para mim ouvir novamente a seqüência de acontecimentos. Trata-se de um caso, Watson, que pode conter algo, ou não conter coisa alguma. Mas apresenta características insólitas e absurdas, tão atraentes para você como para mim. Agora, sr. Pycroft, não voltarei a interrompê-lo.

Nosso jovem companheiro virou-se para mim com um brilho malicioso nos olhos.

– O pior da história é mostrar que sou um perfeito idiota. Talvez tudo dê certo, é claro, e não vejo como poderia ter agido de outro modo; mas se perdi meu emprego e não obtiver nada em troca, sentirei que fui crédulo demais. Não sou um bom contador de histórias, dr. Watson, mas foi isto que aconteceu.

– Eu trabalhava na Coxon & Woodhouse, de Draper Gardens, mas eles foram atingidos no início da primavera pelo escândalo do empréstimo venezuelano, como deve se lembrar, e sofreram um duro golpe.

– Como trabalhei com eles durante cinco anos, o velho Coxon deu-me uma excelente carta de recomendação quando houve a quebra. Mas é claro que todos nós, os corretores, fomos para a rua. Éramos 27. Tentei arranjar um emprego aqui e ali, mas havia muita gente no mesmo barco e passei por apertos durante algum tempo. Ganhava 3 libras semanais na Coxon e tinha economizado umas 70, mas gastei tudo rapidamente. Eu já estava sem saber o que fazer, mal conseguia dinheiro para comprar envelopes e pagar os selos para responder aos anúncios. Gastei as solas dos sapatos subindo escadas e parecia continuar tão longe de arranjar um emprego como no início.

– Finalmente descobri uma vaga em Mawson & Williams, a grande firma de corretagem de Lombard Street. Creio que corretagem não está entre os seus interesses, mas posso afirmar que se trata de uma das firmas mais prósperas de Londres. O anúncio devia ser respondido somente por carta. Enviei meu currículo e cartas de recomendação, mas sem qualquer esperança de conseguir o lugar. A resposta veio prontamente, dizendo que eu deveria me apresentar na segunda-feira seguinte e assumir logo, contanto que minha aparência fosse satisfatória. Ninguém sabe como funcionam essas coisas.Há quem diga que o gerente se limita a enfiar a mão na pilha de cartas e abrir a primeira que pegar. Seja como for, tive sorte e nunca me senti tão satisfeito na vida. O salário era uma libra semanal acima do que eu ganhava e minhas obrigações eram mais ou menos as mesmas que tinha na Coxon.

– Chegamos agora à parte estranha do caso. Eu morava em Hampstead. Potter’s Terrace, 17 era o endereço. Bem, eu estava sentado, fumando, na noite em que me prometeram o emprego, quando minha senhoria subiu, trazendo um cartão que dizia: “Arthur Pinner, financista.” Eu nunca ouvira este nome antes e não podia imaginar o que o sujeito queria, mas é claro que o convidei a subir. Era um homem de estatura mediana, cabelos, barba e olhos pretos, nariz um tanto recurvo. Caminhava com passos decididos e falava de modo incisivo, como alguém que conhecesse o valor do tempo.

– “Sr. Hall Pycroft?”

– “Sim, senhor”, respondi, convidando-o a sentar-se.

– “Trabalhou ultimamente em Coxon & Woodhouse?”

– “Sim, senhor.”

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