Na Mawson, os empregados só trabalham até meio-dia de sábado. O sargento Tuson, da Polícia Metropolitana, surpreendeu-se, portanto, ao ver um cavalheiro com uma valise descer as escadas vinte minutos depois das 13 horas. Desconfiado, o sargento o seguiu e, com a ajuda do cabo Pollock, conseguiu prendê-lo, após uma resistência desesperada. Imediatamente ficou claro que um roubo audacioso e gigantesco fora cometido. Quase 100 mil libras em títulos de estradas de ferro americanas, além de um grande número de ações de minas e outras companhias, foram encontrados na pasta. Ao examinarem o local, descobriram o corpo do infeliz vigia dobrado e atirado dentro do cofre maior, onde só seria encontrado na segunda-feira de manhã, não fosse a pronta ação do sargento Tuson. O crânio da vítima havia sido despedaçado com um golpe dado pelas costas. Não podia haver dúvida de que Beddington conseguira entrar alegando ter esquecido alguma coisa. Depois de assassinar o vigia, fez uma rápida limpeza no cofre maior e saiu com o produto do roubo. Seu irmão, que em geral trabalha com ele, aparentemente não participou deste golpe, embora a polícia esteja fazendo investigações para descobrir o seu paradeiro.”

– Bem, pouparemos à polícia algum trabalho neste sentido – disse Holmes, olhando para a fisionomia transtornada do homem encolhido junto à janela. – A natureza humana é estranhamente complexa, Watson. Veja que até mesmo um vilão e assassino é capaz de inspirar afeto, a ponto de o irmão tentar suicidar-se ao saber que ele está ameaçado. Mas não temos escolha quanto à maneira de agir. O dr. Watson e eu ficaremos de guarda, sr. Pycroft, se quiser ter a bondade de chamar a polícia.

gloria scott

Tenho aqui alguns papéis e acho que valia a pena você dar uma olhada – disse o meu amigo Sherlock Holmes, numa noite de inverno em que estávamos sentados junto à lareira. – São documentos referentes ao extraordinário caso do Gloria Scott, e esta é a mensagem que matou de horror o juiz de paz Trevor, quando a leu.

Pegou em uma gaveta um pequeno cilindro embaçado, retirou o selo e entregou-me um bilhete rabiscado em meia folha de papel cinzento.

O fornecimento de caça para Londres aumenta constantemente. O guarda-caça Hudson, segundo acreditamos, contou com o recebimento de papel caça-moscas para a preservação da vida dos seus faisões.

Quando acabei de ler aquela mensagem enigmática, vi Holmes rindo da minha expressão.

– Você parece meio aturdido – observou.

– Não vejo como este bilhete possa inspirar horror. Parece-me mais grotesco do que qualquer outra coisa.

– É bem provável. Mas o fato é que  a pessoa que leu, um velho robusto e bem disposto, foi vítima dele, como se tivesse sido atingido por uma coronhada.

– Você me deixa curioso. Mas por que disse há pouco que havia motivos muito particulares para que eu examinasse este caso?

– Porque foi o primeiro em que me envolvi.

Eu havia tentado muitas vezes saber de meu amigo o que o levara a se interessar pela pesquisa criminal, mas nunca o surpreendera numa hora de disposição comunicativa. Naquele momento, inclinou-se para a frente na poltrona e abriu os documentos sobre os joelhos. Depois, acendeu o cachimbo e fumou durante algum tempo antes de me entregar os papéis.

– Já me ouviu falar a respeito de Vítor Trevor? Foi o único amigo que fiz nos meus dois anos de universidade. Nunca fui muito sociável, Watson, preferindo ficar sempre nos meus aposentos elaborando métodos de raciocínio e nunca me envolvi muito com os colegas de classe. Com exceção de esgrima e boxe, eu tinha poucas inclinações esportivas. Além disso, minha linha de estudos era bem diferente da dos meus colegas, de modo que não tínhamos pontos de contato. Trevor era o único homem que eu conhecia e isso em conseqüência de um incidente: o  dele mordeu meu tornozelo certa manhã, quando eu estava indo para a capela.

– Foi uma maneira prosaica de fazer amizade, mas eficaz. Fiquei de cama dez dias e Trevor aparecia sempre para saber como eu estava. A princípio era apenas uma conversa rápida, mas em pouco tempo as visitas se prolongaram e antes do fim do trimestre éramos bons amigos. Ele era um sujeito cordial, vivo, cheio de animação e energia, o oposto do meu temperamento em quase todos os aspectos. Mas descobrimos interesses comuns e um verdadeiro elo passou a nos unir quando descobri que ele também não tinha amigos. Finalmente, convidou-me para ir à casa de seu pai, em Donnithorpe, Norfolk. Aceitei a sua hospitalidade durante um mês inteiro de férias.

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