– O velho Trevor era evidentemente um homem de posses e prestígio, juiz de paz e proprietário de terras. Donnithorpe é um povoado ao norte de Langmere, no distrito de Broads. A casa era antiga, ampla, com traves de carvalho no teto, paredes de tijolos. Uma bela alameda ladeada de limeiras conduzia à entrada. Os terrenos proporcionavam excelente caça aos patos selvagens, ótimos locais de pescaria e havia uma biblioteca pequena mas seleta, herdada, segundo entendi, de um antigo morador. A comida era tolerável, de modo que uma pessoa exigente poderia passar ali um mês muito agradável.
– Trevor pai era viúvo, e meu amigo, filho único. Soube que uma irmã morrera de difteria durante uma visita a Birmingham. O pai me despertou muito interesse. Era homem de pouca cultura, mas considerável vigor, tanto físico como mental. Mal abrira um livro, mas viajara muito, conhecia grande parte do mundo e lembrava-se de tudo o que havia aprendido. Era um homem atarracado, vigoroso, de cabeleira grisalha, rosto bronzeado e olhos azuis tão vivos que chegavam a parecer ferozes. No entanto era conhecido na região como um homem bondoso e caridoso, que chamava atenção pela brandura de suas sentenças no tribunal.
– Uma noite, pouco depois da minha chegada, tomávamos vinho do Porto após o jantar, quando Trevor filho começou a falar sobre os hábitos de observação e dedução que eu já sistematizara, embora ainda não percebesse o papel que representariam na minha vida. O velho pensou, evidentemente, que o filho exagerava na descrição de um ou dois dos meus feitos triviais.
– Rindo bem-humorado, ele disse:
– “Sr. Holmes, sou um excelente sujeito. Veja se é capaz de deduzir algo a meu respeito.”
– “Temo que não haja muita coisa a deduzir”, comentei. “Creio que tem estado sob o temor de uma agressão pessoal nos últimos 12 meses.”
– O riso morreu-lhe nos lábios e ele me olhou muito surpreso.
– “Isto é verdade.” E virando-se para o filho: “Vítor, quando desbaratamos aquele grupo de caçadores ilegais, eles juraram nos matar. E Edward Holly chegou a ser agredido. Desde então fiquei de sobreaviso, embora não faça idéia de como descobriu isso.”
– “O senhor tem uma bengala muito bonita”, respondi. “Pela inscrição, observei que a possui há menos de um ano. Mas teve o cuidado de retirar o castão e despejar chumbo derretido no orifício, transformando-a numa arma poderosa. Concluí que só tomaria essas precauções se temesse algum perigo.”
– “Mais alguma coisa?”, perguntou, sorrindo.
– “Lutou boxe durante um bom tempo na juventude.”
– “Certo novamente. Como descobriu? O meu nariz é meio torto?”
– “Não, as orelhas. Elas têm aquele achatamento e a espessura característicos dos lutadores de boxe.”
– “Mais alguma coisa?”
– “E fez muita escavação, a julgar pelas calosidades.”
– “Ganhei toda a minha fortuna em minas de ouro.”
– “Esteve na Nova Zelândia.”
– “É exato.”
– “E visitou o Japão.”
– “Absolutamente correto.”
– “E esteve intimamente associado a alguém cujas iniciais eram J. A., pessoa que o senhor tem se esforçado para esquecer completamente.”
– O sr. Trevor levantou-se devagar, fixou em mim seus grandes olhos azuis de um jeito estranho e depois caiu para a frente, com o rosto entre as cascas de nozes espalhadas pela mesa, num desmaio profundo.
– Você pode imaginar, Watson, o choque que isso representou para o filho e para mim. Mas o desmaio não foi longo. Abrimos o colarinho, jogamos água no rosto dele, que arquejou uma ou duas vezes e retesou o corpo.
– Com um sorriso forçado, ele disse:
– “Espero não tê-los assustado, rapazes! Embora eu seja um homem robusto, tenho um ponto fraco no coração e qualquer coisa me abala. Não sei como consegue isso, sr. Holmes, mas tenho a impressão de que todos os detetives reais e fictícios seriam como crianças em suas mãos. É para isso que deve orientar a sua vida. Ouça a palavra de um homem que conhece boa parte do mundo.”
– E essa recomendação, com a avaliação exagerada do meu talento que a precedeu, foi a primeira coisa que me fez sentir, Watson, que eu poderia transformar em profissão aquilo que até então não passava de um Mas naquele momento eu estava muito preocupado com o repentino mal-estar do meu anfitrião para pensar em outra coisa.
– “Espero não ter dito nada que o magoasse”, falei.
– “Tocou num ponto bastante sensível, sem dúvida. Posso perguntar como soube e quanto sabe?”
– Falava em tom de brincadeira, mas o olhar de pavor voltara às suas pupilas.
– “É muito simples. Quando descobriu o braço para recolher aquele peixe, vi que as letras ‘J. A.’ tinham sido tatuadas na dobra do cotovelo. Eram ainda legíveis, mas pela aparência borrada e pela mancha na pele em volta ficou claro que foram feitas tentativas para apagá-las. Então, era óbvio que aquelas iniciais representavam alguém muito próximo, que mais tarde quis esquecer.”