– Que explosão de vingança havia eclodido subitamente na alma daquela apaixonada mulher celta ao ver à sua mercê o homem que a tinha repudiado – e talvez mais profundamente do que suspeitávamos? O pedaço de madeira teria rolado por acaso e deixado Brunton preso no lugar que se transformou na sua sepultura? Ela era culpada apenas do silêncio em relação ao destino do mordomo? Ou algum súbito golpe da sua mão teria atirado longe o apoio, fazendo com que a laje se fechasse? Fosse como fosse, tive a impressão de ver o vulto dessa mulher ainda segurando o seu tesouro e fugindo desvairada pela escada circular, com os gritos abafados que deixava para trás vibrando nos seus ouvidos, juntamente com batidas frenéticas de mãos contra a laje de pedra que mataria por sufocação o seu amante infiel.

– Era este o segredo do rosto pálido, dos nervos abalados, das gargalhadas histéricas na manhã seguinte. Mas o que havia no cofre? O que ela teria feito com o conteúdo? Claro que deviam ser os fragmentos de metal e os calhaus que meu cliente havia retirado do lago. Ela os atirara na água na primeira oportunidade a fim de apagar os últimos vestígios do seu crime.

– Durante cerca de vinte minutos fiquei sentado, imóvel, pensando no caso. Musgrave continuava de pé, muito pálido, agitando a lanterna e olhando para dentro do buraco.

– “São moedas de Carlos I”, disse, examinando as poucas que ainda restavam no cofre. “Como vê, tínhamos razão ao fixar a data para o Ritual.”

– “Talvez encontremos outra coisa de Carlos I”, exclamei, quando de repente me ocorreu o provável significado das duas primeiras perguntas do Ritual. “Vamos examinar o conteúdo da sacola que foi pescada do lago.”

– Subimos até o gabinete e Musgrave colocou diante de mim os fragmentos metálicos. Compreendi que ele devia tê-los considerado de pouca importância, já que o metal estava quase negro e as pedras, totalmente sem brilho. Esfreguei uma delas na manga e ela cintilou na concavidade da minha mão. O trabalho de metal tinha a forma de um duplo anel, mas estava entortado, perdendo a forma original.

– “É preciso ter em mente que o partido realista tinha prestígio na Inglaterra mesmo após a morte do rei, e que quando finalmente resolveram fugir, devem ter deixado enterrados muitos de seus bens mais preciosos, com a intenção de voltar e recuperá-los em tempos mais tranqüilos”,  observei.

– “Meu antepassado, Ralph Musgrave, era um destacado Cavaleiro, o braço direito de Carlos II em suas viagens”, disse meu amigo.

– “Verdade? Bem, creio que isso nos fornece o último elo de que precisávamos. Devo congratulá-lo por tomar posse, embora de modo um tanto trágico, de uma relíquia de grande valor intrínseco, e de importância ainda maior como curiosidade histórica.”

– “Que relíquia?”, ele perguntou, espantado.

– “Nada menos que a antiga coroa dos reis da Inglaterra.”

– “A coroa!”

– “Exatamente. Considere o que diz o Ritual. O que diz ele? ‘A quem pertenceu? Àquele que se foi.’ Isso ocorreu depois da execução de Carlos I. E depois: Quem o terá? Aquele que virá, ou seja, Carlos II, cujo advento já estava previsto. Não pode haver dúvida de que este diadema amassado e disforme coroou a fronte dos reis Stuart.”

– “E como foi parar no lago?”

– “Ah, esta é uma pergunta que levaremos algum tempo para responder.”

– E esbocei para ele toda a longa cadeia de suposições e provas que eu havia elaborado. O crepúsculo havia baixado e a lua brilhava no céu quando terminei a narrativa.

– “E por que Carlos II não recuperou a coroa quando voltou?”, perguntou Musgrave, guardando a relíquia na sacola de linho.

– “Você tocou num ponto que provavelmente jamais conseguiremos esclarecer. É possível que o Musgrave que guardava o segredo tenha morrido no intervalo e, por algum lapso, deixou ao seu descendente esta orientação sem explicar o que significava. Dessa época até hoje passou de pai para filho, e acabou caindo nas mãos de um homem que desvendou o segredo e perdeu a vida na aventura.”

– Esta é a história do Ritual Musgrave, Watson. A coroa continua em Hurlstone, embora houvesse algum empecilho legal e fosse necessário pagar uma soma considerável para obterem a permissão de conservá-la. Tenho certeza de que se você mencionar meu nome, eles terão prazer em mostrá-la. Da mulher nunca mais se teve notícia e o mais provável é que tenha saído da Inglaterra, levando a lembrança do crime para algum país de além-mar.

os senhores de reigate

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