– Você pode imaginar, Watson, com que atenção escutei esta extraordinária seqüência de acontecimentos, tentando uni-los e descobrir um elo entre eles. O mordomo havia desaparecido. A empregada idem. A empregada amava o mordomo, mas depois teve motivos para odiá-lo. Tinha sangue galês, era ardente e apaixonada. Estava profundamente abalada após o desaparecimento do mordomo e havia atirado no lago uma mala contendo objetos estranhos. Todos esses fatores precisavam ser levados em consideração, mas nenhum conduzia ao âmago da questão. Qual o ponto de partida daquela cadeia de acontecimentos? Víamos apenas o fim de uma linha emaranhada.
– “Preciso ver aquele papel, Musgrave. O papel que o seu mordomo achou que valia a pena examinar mesmo arriscando-se a perder o emprego.”
– “É um tanto absurdo esse nosso Ritual, mas tem pelo menos o encanto da antiguidade como justificativa. Tenho uma cópia das perguntas e respostas, se quiser dar uma olhada nela.”
– Entregou-me este documento que está aqui, Watson. É o estranho catecismo a que cada Musgrave se submete ao atingir a maioridade. Vou ler as perguntas e respostas:
– De quem é isto?
– Daquele que se foi.
– Quem o terá?
– Aquele que virá.
– Qual foi o mês?
– O sexto a partir do primeiro.
– Onde estava o sol?
– Sobre o carvalho.
– Onde estava a sombra?
– Debaixo do olmo.
– A quantos passos?
– Norte por dez e dez, leste por cinco e cinco, sul por dois e dois, oeste por um e um, e assim debaixo.
– O que daremos em troca?
– Tudo o que é nosso.
– Por que o daremos?
– Por razões de confiança.
– “O original não tem data, mas a grafia é de meados do século XVII”, observou Musgrave. “Mas temo que ajude muito na solução do mistério.”
– “Pelo menos nos proporciona outro mistério ainda mais interessante que o primeiro. É possível que a solução de um seja a solução do outro. Perdoe, Musgrave, se digo que seu mordomo parece ter sido um homem muito esperto, com uma percepção mais aguçada do que dez gerações de fidalgos.”
– “Não entendo. O documento não me parece ter qualquer importância prática.”
– “Pois a mim parece extremamente prático e imagino que Brunton tenha pensado da mesma maneira. É provável que o tenha visto bem antes da noite em que foi surpreendido.”
– “É bem possível. Nunca tomamos qualquer precaução para escondê-lo.”
– “Ele queria simplesmente reavivar a memória naquela última vez. Como você disse, ele tinha uma espécie de mapa e o estava comparando com o manuscrito. Enfiou-o no bolso quando você apareceu?”
– “É. Mas o que ele teria a ver com esse velho costume da nossa família, e o que significa toda esta confusão?”
– “Creio que não será muito difícil descobrir”, respondi. “Com a sua permissão, tomaremos o primeiro trem que segue para Sussex e examinaremos mais profundamente a questão no próprio local.”
– Naquela mesma tarde estávamos em Hurlstone. É possível que você tenha visto fotos ou tenha lido descrições da famosa construção antiga, de modo que me limitarei a dizer que a residência é em forma de L, sendo o braço longo a parte mais moderna, e o curto, o núcleo antigo a partir do qual o outro se desenvolveu. Sobre a porta baixa e pesada, no centro da parte antiga, está gravada a data de 1607, mas especialistas afirmam que as traves e o trabalho de cantaria são bem mais antigos. As paredes de largura extraordinária e as minúsculas janelas daquela ala levaram a família, no último século, a construir uma ala nova, passando a antiga a ser usada como depósito e adega, quando era usada. Um esplêndido parque, cheio de belas árvores antigas, rodeia a casa, e o lago a que meu cliente se referiu fica perto da alameda, a cerca de 200 metros da construção.
– Eu já estava convencido, Watson, de que não havia três mistérios independentes no caso, mas só um e que se conseguisse interpretar corretamente o Ritual Musgrave, teria na minha mão a pista que me levaria à verdade referente tanto ao mordomo Brunton como à criada Howells. Concentrei todas as minhas energias nessa direção. Por que o mordomo estaria tão ansioso para dominar aquele antigo ritual? Evidentemente porque via nele algo que escapara a todas aquelas gerações de aristocratas, e do qual esperava tirar alguma vantagem pessoal. O que seria e como afetaria o seu destino?
– Ficou óbvio para mim, ao ler o Ritual, que as medidas deviam referir-se a algum local mencionado no resto do documento, e que se pudéssemos encontrá-lo, estaríamos numa boa pista para descobrir o segredo que os antigos Musgraves haviam julgado necessário embalsamar de maneira tão curiosa. Havia dois pontos de partida, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, não podia haver dúvidas. Bem na frente da casa, do lado esquerdo da alameda, havia um patriarca entre todos os carvalhos, uma das árvores mais magníficas que já vi.
– “Ele já existia quando o seu Ritual foi redigido?”, perguntei, quando passamos pelo carvalho.
– “Provavelmente já estava aí na época da conquista normanda. Tem 7 metros de circunferência.”
– Um dos pontos que eu determinara estava garantido.