– “Responda com franqueza”, ele continuou, “pois descobrirá que é do seu interesse. Tem inteligência para fazer sucesso. Mas tem tato também?”
– Não pude deixar de sorrir diante daquela pergunta inesperada.
– “Espero ter o suficiente.”
– “Maus hábitos? Inclinação para a bebida?”
– “Ora, meu senhor!”, exclamei.
– “Tem razão! Não se preocupe, mas eu precisava perguntar. Com todas essas qualidades, por que não está clinicando?”
– Dei de ombros.
– “Vamos, fale!”, disse, com sua maneira expansiva. “É a velha história. Muita inteligência e pouco dinheiro, não é? O que diria se eu o fizesse começar em Brook Street?”
– Olhei para ele , espantado.
– “É em meu benefício, não no seu!”, exclamou. “Falarei com toda a franqueza e, se lhe convier, para mim será ótimo. Tenho alguns milhares para investir e decidi fazê-lo na sua pessoa.”
– “Mas por quê?”
– “É como qualquer outra especulação e mais segura que a maioria.”
– “O que é que eu devo fazer, neste caso?”
– “Digo já. Eu alugo a casa, providencio as instalações, pago os criados e administro tudo. De sua parte, basta ocupar a cadeira do consultório. Eu lhe darei dinheiro para as despesas e tudo o mais. Depois me dará 3/4 do que ganhar e ficará com 1/4 para si mesmo.”
– Foi esta a estranha proposta que me apresentou o homem chamado Blessington, sr. Holmes. Não pretendo cansá-lo com o relato da negociação. A história terminou com a minha mudança para a casa no ,* e ali comecei a clinicar nas condições que ele havia sugerido. Ele veio morar comigo na condição de paciente interno. Tinha o coração fraco e precisava de acompanhamento médico constante. Transformou as duas melhores peças do primeiro andar em sala e quarto para ele. Era um homem de hábitos singulares, não gostava de visitas e raramente saía. Apesar da vida irregular, em certo sentido era a própria regularidade. Todas as noites, à mesma hora, entrava no consultório, examinava os livros, separava 5 xelins e 3 pence de cada libra que eu ganhava e levava o restante para o cofre que havia no seu quarto.
– Posso afirmar que ele nunca teve motivo para lamentar a especulação. Desde o início foi um sucesso. Alguns casos bons e a reputação que eu havia adquirido no hospital produziram êxito imediato e nos últimos dois anos eu o tornei um homem rico.
– Narrei minha história e minhas relações com o sr. Blessington. Só falta contar o que aconteceu para me trazer aqui esta noite.
– Algumas semanas atrás, o sr. Blessington veio me procurar aparentemente muito agitado. Falou de um roubo que teria ocorrido no West End e, lembro-me bem, estava desnecessariamente agitado, afirmando que naquele dia mesmo mandaria colocar fechaduras mais resistentes nas portas e janelas. Passou uma semana nesse estranho estado de agitação, olhando constantemente pelas janelas e deixando de fazer o curto passeio que em geral precedia o seu jantar. Tive a impressão de que estava mortalmente apavorado com alguém ou alguma coisa, mas quando o interroguei a respeito, mostrou-se tão grosseiro que fui obrigado a mudar de assunto. Com o passar dos dias, o temor começou a diminuir, e ele já voltara aos antigos hábitos, quando um novo acontecimento deixou-o no estado de prostração em que está agora.
Aconteceu o seguinte. Há dois dias recebi a carta que vou ler. Não trazia data nem endereço.
– A carta interessou-me profundamente porque a principal dificuldade no estudo da catalepsia é a raridade da doença. Podem compreender por que eu estava no consultório na hora marcada, quando o assistente mandou o paciente entrar.
– Era um homem idoso, magro, quieto e vulgar. Não correspondia de maneira alguma à idéia que geralmente se faz de um nobre russo. Fiquei ainda mais impressionado com a aparência de seu companheiro. Era um rapaz alto e de bela figura, fisionomia agressiva e fechada, torso e membros de um Hércules. Segurava o braço do outro quando entraram e ajudou-o a sentar-se numa cadeira com cuidados que não eram de se esperar em alguém com aquela aparência.
– “Perdoe a minha presença, doutor”, disse com ligeiro sotaque. “Este é meu pai e sua saúde é motivo de grande preocupação para mim.”
– Fiquei comovido com aquela ansiedade filial.
– “Gostaria de assistir à consulta?”, perguntei.