Sherlock Holmes escutou a longa narrativa com uma atenção que mostrava estar profundamente interessado. Sua expressão continuava imperturbável, como sempre, mas as pálpebras caíam mais pesadas sobre os olhos, a fumaça enroscava-se mais espessa ao sair do cachimbo, sublinhando cada um dos estranhos episódios da narrativa do médico. Quando o nosso visitante terminou, Holmes levantou-se sem uma palavra, entregou-me o meu chapéu, apanhou o dele, que estava sobre a mesa, e saímos junto com o dr. Trevelyan. Quinze minutos depois saltávamos diante da residência do médico, em Brook Street, uma daquelas construções sombrias, de fachada lisa, que costumamos associar a uma clínica do West End. Um rapazinho abriu a porta para nós e subimos a escada ampla e bem atapetada.

Mas uma interrupção estranha nos deixou imóveis. A luz do alto da escada apagou-se de repente e na escuridão ouvimos uma voz trêmula gritar:

– Estou com uma pistola e juro que vou disparar se insistirem em subir!

– Isto é um absurdo, sr. Blessington! – gritou o dr. Trevelyan.

– Ah, é o doutor? – disse a voz, num arquejo de alívio. – Mas os outros senhores são de fato quem dizem ser?

Percebemos que, do escuro, ele nos observava atentamente.

– Sim, sim, está bem – disse a voz finalmente. – Podem subir e perdoem as minhas precauções.

Ele tornou a acender a lâmpada a gás que iluminava a escada e nós nos vimos diante de um homem estranho, cuja aparência e voz revelavam extremo abalo nervoso. Era muito gordo, mas aparentemente já fora mais, porque a pele pendia do rosto em bolsas flácidas, lembrando o focinho de um mastim. Sua pele tinha uma cor doentia e o cabelo louro e ralo parecia estar em pé devido à intensidade da emoção. Empunhava uma pistola, que guardou no bolso quando nos aproximamos.

– Boa-noite, sr. Holmes – cumprimentou. – Sou muito grato por ter vindo. Ninguém precisa mais dos seus conselhos do que eu. Suponho que o dr. Trevelyan tenha contado a inexplicável invasão do meu quarto.

– Exatamente – disse Holmes. – Quem são esses dois homens, sr. Blessington, e por que querem prejudicá-lo?

Nervoso, o paciente interno respondeu:

– Ora, é difícil saber. Como espera que eu responda a uma pergunta dessas, sr. Holmes?

– Então não sabe?

– Entrem, por favor. Tenham a bondade de entrar.

E conduziu-nos ao seu quarto, que era amplo e confortavelmente mobiliado.

– Estão vendo aquilo? – disse, apontando para uma grande caixa preta aos pés da cama. – Nunca fui muito rico, sr. Holmes. Só fiz um investimento na vida, como o dr. Trevelyan deve ter contado. Não acredito em banqueiros. Jamais confiaria num banqueiro, sr. Holmes. Aqui entre nós, o pouco que tenho está naquela caixa, de modo que podem imaginar o que significa para mim saber que pessoas desconhecidas invadiram meu quarto.

Holmes olhou para Blessington com seu jeito interrogativo e meneou a cabeça.

– Não posso dar-lhe nenhum conselho quando tenta me enganar.

– Mas já contei tudo.

Virando-lhe as costas com um gesto de aborrecimento, Holmes disse:

– Boa-noite, dr. Trevelyan.

– E não vai me dar nenhum conselho? – exclamou Blessington com a voz trêmula.

– Meu conselho é que diga a verdade, senhor.

Um minuto depois estávamos na rua, voltando a pé para casa. Tínhamos atravessado Oxford Street e estávamos no meio da Harley Street quando consegui extrair uma palavra do meu amigo.

– Lamento tê-lo arrastado para esta missão idiota, Watson – disse finalmente. – No fundo, é um caso interessante.

– Não entendi quase nada – confessei.

– É evidente que há dois homens, talvez mais, porém dois pelo menos, decididos, por algum motivo, a prejudicar esse Blessington. Não tenho a menor dúvida de que tanto na primeira como na segunda ocasião o rapaz entrou no quarto de Blessington, enquanto seu cúmplice, graças a um artifício engenhoso, impedia o médico de interferir.

– E a catalepsia?

– Imitação fraudulenta, Watson, embora eu não ouse sugeri-lo ao nosso especialista. É muito fácil imitar um ataque. Eu mesmo já o fiz.

– E depois?

– Por mero acaso, Blessington havia saído nas duas ocasiões. O motivo da escolha de uma hora tão insólita para a consulta era evidentemente garantir que não houvesse outros pacientes na sala de espera. Acontece que o momento coincidiu com a hora do passeio de Blessington, o que demonstra que não estavam a par de sua rotina diária. É claro que se quisessem apenas roubar, teriam feito ao menos uma tentativa. Além do mais, sei ler nos olhos de um homem quando é pela própria vida que ele teme. É inconcebível que o sujeito tenha feito sem o saber dois inimigos tão vingativos. É certo, portanto, que ele sabe quem são esses homens, mas se cala por motivos pessoais. É possível que amanhã nós o encontremos com uma disposição mais comunicativa.

– Não haverá outra alternativa concebível, por mais grotesca e improvável que seja? – sugeri. – A história do russo que sofre de catalepsia e apareceu acompanhado do filho não seria uma invenção do dr. Trevelyan, que, por motivos pessoais, entrou no quarto de Blessington?

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