– Devem lembrar do grande roubo ao banco de Worthington – disse Holmes. – Havia cinco homens envolvidos no caso, estes quatro e um quinto, chamado Cartwright. Tobin, o vigia, foi assassinado, e os ladrões fugiram com 7 mil libras. Isto aconteceu em 1875. Os cinco foram presos, mas as provas contra eles não eram conclusivas. Blessington, ou Sutton, o pior da quadrilha, delatou os outros. Baseado em seu depoimento, Cartwright foi enforcado e os outros três pegaram 15 anos cada. Quando foram postos em liberdade, há dias, alguns anos antes de completarem a sentença, saíram imediatamente à procura do traidor para vingar a morte do companheiro. Por duas vezes tentaram pegá-lo, mas não conseguiram. Na terceira tiveram sorte. Há mais alguma coisa a ser explicada, dr. Trevelyan?

– Creio que deixou tudo absolutamente esclarecido – respondeu o médico. – O dia em que ele apareceu tão perturbado deve ter sido aquele em que leu no jornal a notícia da libertação dos cúmplices.

– Exatamente. A história de roubo era simples despistamento.

– Mas, por que não contou tudo?

– Conhecendo a natureza vingativa de seus antigos cúmplices, tentava ocultar a sua verdadeira identidade. O segredo era vergonhoso e ele não tinha coragem de divulgá-lo. Por mais infeliz que estivesse, encontrava-se ainda sob o escudo da lei britânica, e não tenho dúvidas, inspetor, de que o senhor zelará para que, embora o escudo tenha falhado na proteção, a espada da justiça esteja presente para vingar.

Estas foram as circunstâncias singulares que envolveram o paciente interno e o médico de Brook Street. A partir daquela noite, nada mais se soube dos três assassinos, e a Scotland Yard deduziu que se encontravam entre os infelizes passageiros do vapor , que naufragou há alguns anos com toda a tripulação nas costas de Portugal, algumas milhas ao norte do Porto. O processo contra o rapazinho auxiliar do médico não foi adiante por falta de provas e o “Mistério de Brook Street”, como foi chamado, nunca chegou a ser inteiramente revelado ao público.

o intérprete grego

Durante o longo e estreito realcionamento com Sherlock Holmes, nunca ouvi dele nenhuma referência à sua família e muito poucas à infância. Esta reticência de sua parte aumentou a impressão pouco humana que ele me transmitia, a ponto de me surpreender às vezes a observá-lo como um fenômeno isolado, um cérebro sem coração, tão desprovido de simpatia humana quanto fértil em inteligência. Sua aversão às mulheres e pouca inclinação a fazer novas amizades eram típicas de um temperamento seco, mas não tanto quanto sua omissão total de qualquer referência à família. E eu passara a acreditar que era órfão e sem parentes vivos, até que um dia, para minha grande surpresa, ele começou a falar sobre o irmão.

Foi depois do chá, num crepúsculo de verão. A conversa que se desenrolava a esmo, de maneira espasmódica, passando de bastões de golfe às causas da mudança na obliqüidade da eclíptica, enveredou finalmente pela questão do atavismo e das aptidões hereditárias. O assunto em debate era até que ponto um talento específico num indivíduo seria devido à sua ascendência, e até que ponto era conseqüência da educação inicial.

– Diante de tudo o que me disse, no seu caso parece óbvio que sua capacidade de observação e sua facilidade peculiar para a dedução devem-se ao seu próprio treinamento sistemático.

– Até certo ponto – ele respondeu, pensativo. – Meus antepassados pertenciam à nobreza do campo e parecem ter levado a existência normal dos de sua classe. Ainda assim, minha inclinação está nas minhas veias e talvez tenha sido herdada de minha avó, que era irmã de Vernet, o artista francês. A arte no sangue é capaz de assumir as formas mais estranhas.

– Mas como sabe que é hereditária?

– Porque meu irmão Mycroft a possui num grau mais acentuado.

Isso foi novidade para mim. Se houvesse na Inglaterra outro homem com poderes tão especiais, por que nem a polícia nem o público tinham ouvido falar nele? Fiz a pergunta, dando a entender que a modéstia de meu amigo é que o levava a considerar o irmão superior a ele. Holmes riu da sugestão.

– Meu caro Watson, não concordo com os que incluem a modéstia entre as virtudes. Para o lógico, todas as coisas devem ser exatamente o que são, e subestimar-se é tão falso quanto exagerar o próprio talento. Portanto, quando digo que Mycroft tem maior capacidade de observação, pode estar certo de que falo a verdade exata e literal.

– Ele é mais moço que você?

– Sete anos mais velho.

– Como é possível que ele tenha permanecido no anonimato?

– Ele é muito conhecido em seu próprio círculo.

– Onde?

– No Clube Diógenes, por exemplo.

Eu nunca tinha ouvido falar na instituição e minha fisionomia deve ter demonstrado isso, pois Sherlock Holmes tirou o relógio do bolso.

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