– A ninguém.
– Nem mesmo à srta. Harrison, por exemplo?
– Não. Não voltei a Woking entre o momento em que recebi a ordem e aquele em que comecei a executá-la.
– E ninguém de sua família passou pelo escritório por acaso, para vê-lo?
– Ninguém.
– Alguém sabia como chegar à sua sala?
– Sim, todos a conheciam.
– É claro que, se não disse nada a ninguém a respeito do tratado, estas perguntas são irrelevantes.
– Não disse nada.
– Sabe alguma coisa a respeito do contínuo?
– Nada, a não ser que é um velho soldado.
– De que regimento?
– Ouvi dizer que foi do Coldstream Guards.
– Obrigado. Conseguirei detalhes com Forbes, sem dúvida. As autoridades são excelentes para acumular fatos, embora nem sempre saibam utilizá-los. Que coisa linda é uma rosa!
Passando pelo sofá, aproximou-se da janela aberta e ergueu a haste de uma rosa de adorno e pôs-se a examinar a atraente mistura de vermelho e verde. Era uma nova faceta do seu temperamento, pois eu nunca o vira demonstrar qualquer interesse pela natureza.
– A dedução nunca é tão necessária como na religião – disse ele, recostando-se nas venezianas. – Pode ser transformada em ciência exata pela pessoa que raciocina. A mais elevada afirmação da bondade da Providência reside, para mim, nas flores. Tudo o mais, nossos talentos, desejos, alimentos, são necessários, em primeira instância, à nossa vida. Mas esta rosa é algo extra. Seu perfume e sua cor são um adorno da vida, não uma condição da existência. Somente a bondade doa algo extra. Repito, portanto, que temos muito a esperar das flores.
Percy Phelps e a moça olharam para Holmes com surpresa e decepção. Ele estava devaneando com a rosa entre os dedos, um devaneio que durou alguns minutos e foi interrompido pela moça.
– Vê alguma possibilidade de resolver o mistério, sr. Holmes? – perguntou, com certa aspereza.
– O mistério! – exclamou, voltando à realidade concreta. – Seria absurdo negar que o caso é nebuloso e complicado, mas prometo estudar a questão e comunicar qualquer detalhe que venha a me impressionar.
– Vê alguma pista?
– Você me forneceu sete, mas é claro que preciso examiná-las antes de me pronunciar acerca do seu valor.
– Suspeita de alguém?
– Suspeito de mim mesmo.
– O quê?
– De chegar a conclusões precipitadas.
– Então volte para Londres e teste as suas conclusões.
– Conselho excelente, srta. Harrison – disse Holmes, erguendo-se. – Creio, Watson, que é o melhor que temos a fazer. Não se entregue a falsas esperanças, sr. Phelps. O caso é muito complicado.
– Não vou conseguir descansar até tornar a vê-lo! – exclamou o diplomata.
– Voltarei amanhã pelo mesmo trem, embora o mais provável é que o meu relatório seja negativo.
– Deus o abençoe pela promessa de voltar – exclamou o nosso cliente. – Sinto-me reanimado só de saber que algo está sendo feito. Por falar nisso, recebi uma carta de lorde Holdhurst.
– Ah! E o que ele disse?
– Uma carta fria, mas não áspera. Creio que minha doença grave me salvou disso. Repetiu que o assunto era de máxima importância e acrescentou que não seria tomada nenhuma medida em relação ao meu futuro – refere-se, naturalmente, à minha demissão – até que eu estivesse recuperado e tivesse oportunidade de compensar o meu deslize.
– Razoável e cheio de consideração – observou Holmes. – Vamos, Watson. Temos um longo dia de trabalho pela frente na cidade.
O sr. Joseph Harrison levou-nos até a estação e pouco depois tomávamos um trem de Portsmouth. Holmes mergulhou em profunda meditação e mal abriu a boca até ultrapassarmos a estação de Clapham Junction.
– É muito agradável chegar a Londres por uma dessas linhas elevadas, que permitem ver as casas do alto.
Pensei que estivesse brincando, pois o panorama era deprimente; mas ele explicou:
– Veja aqueles grupos de construções isoladas e altas, erguendo-se acima dos telhados como ilhas de tijolo num mar cor de chumbo.
– Os internatos.
– Faróis, meu rapaz! Faróis iluminando o futuro! Cápsulas contendo centenas de pequenas sementes, das quais brotará a Inglaterra melhor e mais sábia do futuro. Suponho que Phelps não beba.
– Creio que não.
– Também acho. Mas precisamos levar em conta todas as possibilidades. O pobre-diabo meteu-se em grandes apuros e não sei se conseguiremos tirá-lo disso. O que achou da srta. Harrison?
– Uma moça de temperamento enérgico.
– Sim, mas é boa pessoa, se não me engano. Ela e o irmão são filhos únicos de um fabricante de ferro de Northumberland. Phelps apaixonou-se por ela quando viajou no inverno passado e a moça veio para ser apresentada à família dele, escoltada pelo irmão. E então ocorreu o escândalo e ela ficou para cuidar do noivo, enquanto o irmão, Joseph, vendo-se em situação confortável, permaneceu também. Andei fazendo algumas investigações independentes. Mas hoje será um dia de pesquisas.
– Meus clientes... – comecei.
– Se achar que seus casos são mais interessantes que os meus... – disse Holmes, com certa aspereza.
– Eu pretendia dizer que meus clientes podem me dispensar por um ou dois dias. É a época menos movimentada do ano.