– Sim, é muito necessário. Então, estas são as minhas instruções, e suplico, meu caro Watson, que as siga ao pé da letra, pois está jogando comigo um jogo duplo contra o mais inteligente dos criminosos e o mais poderoso sindicato do crime da Europa. Agora, escute! Você despachará a bagagem que pretende levar por um mensageiro de confiança, esta noite, sem endereço, para a estação de Victoria. De manhã mande chamar um cabriolé. Que seu criado não pegue nem o primeiro nem o segundo que apareçam. Entre no carro e siga para o Strand, no extremo da Lowther Arcade, dando o endereço ao cocheiro escrito num papel, com o pedido de que ele não o jogue fora. Fique com o dinheiro da corrida na mão e no instante em que o veículo parar, atravesse correndo a Arcade, de modo a chegar ao outro extremo às 9:15h. Encontrará uma pequena berlinda à espera junto ao meio-fio, conduzida por um sujeito com uma capa negra e a gola forrada de vermelho. Entre no veículo e chegará a Victoria a tempo de pegar o expresso Continental.

– Onde o encontrarei?

– Na estação. O segundo carro da primeira classe está reservado para nós.

– O carro é o nosso ponto de encontro, então?

– É.

Foi inútil pedir a Holmes que passasse a noite na minha casa. Era evidente que temia trazer problemas para quem o hospedasse, e por isso saiu logo. Com algumas palavras apressadas a respeito dos nossos planos para o dia seguinte, levantou-se. Acompanhei-o até o jardim. Ele pulou o muro que dava para a Mortimer Street e, assobiando imediatamente para chamar um cabriolé, ouvi que se afastava.

De manhã segui ao pé da letra as instruções de Holmes. O cabriolé foi escolhido com tantas precauções que não poderia ter sido colocado ali para nós. Logo após o café fui para Lowther Arcade, que atravessei a toda a velocidade. Uma carruagem estava à espera, dirigida por um cocheiro robusto envolto numa capa preta. No instante em que entrei ele chicoteou o cavalo e saiu em disparada para a estação de Victoria. Quando desci, ele manobrou a carruagem e partiu sem olhar na minha direção.

Até então tudo havia corrido perfeitamente. A bagagem estava à minha espera e não tive dificuldade em descobrir o vagão indicado por Holmes, tanto mais que era o único do trem com a placa de “Reservado”. Meu único motivo de ansiedade era o fato de Holmes não ter aparecido. O relógio da estação mostrava que faltavam apenas sete minutos para a hora da partida. Procurei inutilmente entre os grupos de viajantes e as pessoas que deles se despediam o vulto esguio do meu amigo. Não vi sinal dele. Passei alguns minutos ajudando um venerável padre italiano, que tentava em mau inglês fazer o carregador compreender que a bagagem devia ser remetida para Paris. Depois, olhando em torno mais uma vez, voltei ao vagão, onde descobri que o carregador, apesar do aviso, havia me dado o padre italiano como companheiro de viagem. Expliquei que sua presença era uma intromissão, mas inutilmente, pois meu italiano era ainda mais limitado que o inglês dele, de modo que encolhi os ombros, resignado, e continuei a olhar pela janela, à espera do meu amigo. Tive um arrepio de medo quando pensei que sua ausência poderia significar um golpe ocorrido durante a noite. As portas já estavam fechadas e o apito soou quando...

– Meu caro Watson, você nem sequer se dignou desejar-me bom-dia – disse uma voz.

Virei-me, num espanto incontrolável. O idoso clérigo voltou o rosto para mim. No mesmo instante as rugas desapareceram, o nariz se afastou do queixo, o lábio inferior recolheu-se, a boca deixou de murmurar, os olhos baços recuperaram o brilho, a silhueta encurvada endireitou-se. Logo em seguida, toda a estrutura desabou novamente, e Holmes desapareceu tão depressa quanto havia aparecido.

– Meu Deus! – exclamei. – Você me assustou.

– Todas as precauções são necessárias – murmurou. – Tenho motivos para acreditar que estão na minha pista. Ah, lá vem o próprio Moriarty.

O trem já tinha começado a se mover. Olhando para trás, vi um homem alto abrindo caminho furiosamente entre a multidão, agitando a mão como se quisesse fazer parar o trem. Tarde demais, pois ganhávamos velocidade rapidamente e logo depois saíamos da estação.

– Apesar de todas as precauções, escapamos por pouco, você vê – disse Holmes, rindo.

Levantou-se e, despindo a batina preta e o chapéu que faziam parte do disfarce, guardou-os numa valise.

– Leu o jornal da manhã, Watson?

– Não.

– Então não soube do que aconteceu em Baker Street?

– Baker Street?

– Atearam fogo ao nosso apartamento ontem à noite. Não houve grande prejuízo.

– Meu Deus, Holmes! Isso é intolerável!

– Devem ter perdido completamente a minha pista depois que prenderam o meu agressor, do contrário não imaginariam que eu voltaria para casa. Mas tomaram a precaução de vigiar você e foi isso que trouxe Moriarty à estação de Victoria. Teria cometido algum deslize na vinda?

– Fiz exatamente o que você sugeriu.

– Encontrou a carruagem?

– Encontrei. Estava esperando.

– Reconheceu o cocheiro?

– Não.

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