– Espero que ela não tenha piorado – disse, aproximando-me depressa.

Uma expressão de surpresa surgiu no rosto dele, e ao primeiro tremor de suas sobrancelhas, meu coração pesou como chumbo.

– Não escreveu isto? – perguntei, tirando a carta do bolso. Não há nenhuma inglesa doente no hotel?

– Claro que não – exclamou. – Mas o papel tem o cabeçalho do hotel! Ah, deve ter sido escrita por aquele inglês alto que chegou depois que vocês saíram. Ele disse...

Mas não esperei as explicações do hoteleiro. Apavorado, eu já corria pela rua da aldeia em direção à trilha que acabara de descer. Levara uma hora para voltar. Apesar de todos os meus esforços, duas se passaram até que eu chegasse novamente à catarata de Reichenbach. Vi o bastão de Holmes ainda apoiado à rocha onde o tinha deixado, mas não havia sinal dele. Gritei inutilmente. A única resposta foi o eco de minha voz reverberando pelas montanhas.

Foi a visão do bastão que me deixou gelado e tonto. Ele não tinha seguido para Rosenlaui. Permanecera naquela trilha de 1 metro, com a parede a pique de um lado e o abismo do outro, até que seu inimigo o alcançasse. O jovem suíço também desaparecera. Estava a soldo de Moriarty, provavelmente, e deixara os dois juntos. O que teria acontecido, então? Quem iria contar o que aconteceu?

Fiquei ali um ou dois minutos procurando controlar-me, pois estava dominado pelo horror. Lembrei-me então dos métodos do próprio Holmes e tentei usá-los para reconstituir a tragédia. Era bem fácil, infelizmente! Durante a nossa conversa não tínhamos ido até o final da trilha, e o bastão marcava o ponto onde havíamos parado. O solo enegrecido fica permanentemente macio por causa do jorro incessante de espuma e até um pássaro deixaria ali a sua marca. Dois pares de pegadas estavam nitidamente impressos na trilha, afastando-se de onde eu me encontrava. Nenhum voltava. A alguns metros do final, o solo estava enlameado e pisoteado, os arbustos e plantas que ladeavam o abismo, quebrados e enlameados. Deitei-me de bruços e espiei para baixo, com a espuma jorrando à minha volta. Havia escurecido e eu via apenas, aqui e ali, a cintilação da umidade nas paredes negras, e ao longe, nas profundezas da garganta, o brilho da água em torvelinho. Gritei, mas somente o grito meio humano da queda voltou aos meus ouvidos.

Mas queria o destino que, afinal, eu recebesse uma última palavra do meu amigo e camarada. Eu disse que o bastão estava encostado no rochedo que se projetava para a trilha. No alto desse rochedo, o brilho de alguma coisa chamou minha atenção e, erguendo a mão, encontrei a cigarreira de prata que ele costumava levar no bolso. Quando a peguei, um papel que estava embaixo voou e caiu no chão. Ao desdobrá-lo, vi que eram três páginas rasgadas do caderninho de notas e endereçadas a mim. Era característico de Holmes que o endereço fosse nítido, a caligrafia clara e firme como se ele estivesse escrevendo em seu escritório.

Meu caro Watson,

Escrevo estas poucas linhas por cortesia do sr. Moriarty, que me aguarda para a discussão final das questões que nos separam. Ele me fez um resumo dos métodos pelos quais evitou a polícia inglesa e se manteve informado a respeito dos nossos movimentos. Isto confirma, sem dúvida, o elevado conceito que tenho dos seus talentos. É um prazer pensar que conseguirei livrar a sociedade dos efeitos da sua presença, embora tema que seja a um preço capaz de causar sofrimento aos amigos e especialmente a você, meu caro Watson. Mas já lhe expliquei que minha carreira havia chegado a um ponto crítico e nenhuma forma de conclusão me seria mais agradável do que esta. Na verdade, se me permite uma confissão completa, eu tinha certeza de que a carta de Meiringen era falsa e deixei que você partisse convencido de que algo semelhante aconteceria. Diga ao inspetor Patterson que os documentos de que ele precisa para condenar a gangue estão no escaninho M, num envelope azul, com a inscrição “Moriarty”. Tomei todas as providências relativas aos meus bens antes de sair da Inglaterra e as confiei ao meu irmão Mycroft. Meus cumprimentos à sra. Watson, e creia que permaneço, meu caro amigo

Seu, sinceramente,

Sherlock Holmes

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