– Tendo certeza de que a janela estava aberta na hora da tragédia, imaginei que devia haver uma terceira pessoa no caso, que ficou do lado de fora desta abertura e atirou através dela. Qualquer tiro dirigido a essa pessoa poderia acertar o caixilho. Olhei e lá estava, é claro, a marca da bala!

– Mas como é que a janela foi fechada e trancada?

– O primeiro impulso da mulher foi o de fechar e trancar a janela. Mas, ah! o que é isto?

Era uma bolsa de mulher que estava sobre a mesa do estúdio – uma bolsa pequena e elegante de couro de crocodilo e prata. Holmes a abriu e retirou o seu conteúdo. Havia 25 notas de uma libra do Banco da Inglaterra, presas por um elástico de borracha da Índia – e nada mais.

– Isto precisa ser guardado, pois vai aparecer no julgamento – disse Holmes, enquanto entregava a bolsa e seu conteúdo ao inspetor. – Agora é necessário tentar esclarecer alguma coisa sobre essa terceira bala que, pelo lascado da madeira, foi disparada de dentro do quarto. Gostaria de ver de novo a sra. King, a cozinheira. Disse, sra. King, que foi acordada por uma explosão alta. Quando disse isso, queria dizer que parecia ser mais alta do que a segunda?

– Bem, senhor, ela me arrancou do sono, por isso é difícil dizer. Mas me pareceu bem alta.

– Não acha que poderiam ser dois tiros disparados quase ao mesmo instante?

– Não posso afirmar isso, senhor.

– Não tenho dúvidas de que foi assim. Creio que já esgotamos tudo o que este quarto poderia nos mostrar, inspetor Martin. Se quiser, por gentileza, dar uma volta comigo, veremos que novos indícios o jardim tem para nos apresentar.

Um canteiro de flores se estendia até a janela do estúdio, e todos nós soltamos uma exclamação, quando nos aproximamos. As flores estavam caídas e a terra macia, cheia de pegadas. Eram pés grandes e masculinos, com o bico do sapato especialmente longo e fino. Holmes vasculhou a grama e as folhas como um cão de caça atrás de um pássaro ferido. Então, com um grito de satisfação, curvou-se e pegou um pequeno cilindro cor de bronze.

– Como eu pensava – ele disse –, o revólver tinha um ejetor, e aqui está o terceiro cartucho. Penso realmente, inspetor Martin, que o nosso caso está quase completo.

O rosto do inspetor provinciano mostrou seu grande assombro com o rápido e magistral progresso da investigação de Holmes. No início mostrara certa disposição para impor a própria posição, mas agora estava cheio de admiração e pronto a seguir sem questionar o caminho que Holmes indicasse.

– De quem o senhor suspeita? – perguntou.

– Chegarei lá mais tarde. Existem vários pontos neste problema que ainda não posso explicar para vocês. Agora que já cheguei tão longe, é melhor continuar na minha própria linha, e então esclarecer este caso inteiro de uma vez por todas.

– Como queira, sr. Holmes, até que peguemos nosso homem.

– Não quero fazer mistérios, mas é impossível, no momento da ação, entrar em explicações longas e complexas. Tenho todos os fios da meada em minha mão. Mesmo que essa senhora nunca recobre a consciência, podemos reconstituir os fatos da noite passada, e garantir que seja feita justiça. Antes de mais nada, gostaria de saber se existe algum hotel na vizinhança chamado “Elrige’s”.

Os criados foram interrogados, mas nenhum deles ouvira falar de tal lugar. O rapaz da estrebaria lançou alguma luz no assunto, lembrando que um fazendeiro com aquele nome vivia a alguns quilômetros dali, na direção de East Ruston.

– É uma fazenda isolada?

– Muito isolada, senhor.

– Talvez eles ainda não tenham sabido nada sobre o que aconteceu aqui durante a noite.

– Talvez não, senhor.

Holmes pensou um pouco, e então um curioso sorriso apareceu em seu rosto.

– Sele um cavalo, meu rapaz – disse. – Gostaria que levasse um bilhete à fazenda de Elrige.

Tirou do bolso os  vários pedaços de papel dos homenzinhos dançantes. Com eles na sua frente, trabalhou durante algum tempo na escrivaninha. Finalmente entregou um bilhete ao garoto, com instruções para só entregá-lo nas mãos da pessoa a quem estava endereçado, e, principalmente, não responder a nenhuma pergunta que lhe fizessem. Vi o verso da nota, endereçada numa letra irregular e espalhada, muito diferente da habitual escrita precisa de Holmes. Era dirigida ao sr. Abe Slaney, fazenda de Elrige, East Ruston, Norfolk.

– Creio, inspetor – observou Holmes –, que seria bom telegrafar para pedir uma escolta, porque talvez tenha um prisioneiro particularmente perigoso para levar à cadeia do condado. Certamente o rapaz que vai levar esta nota chegará antes do seu telegrama. Se houver algum trem à tarde para a cidade, Watson, acho melhor pegá-lo, pois tenho uma análise química interessante para acabar, e esta investigação está caminhando rapidamente para um desfecho.

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