– Não tenho nada a esconder de vocês, cavalheiros – disse. – Se atirei no homem, ele também atirou em mim, e não há assassinato nisso. Mas se pensam que eu poderia ter machucado aquela mulher, então não me conhecem, nem a ela. Digo-lhes, nunca houve no mundo um homem que amasse uma mulher mais do que eu a amava. Tinha direito a ela. Estava comprometida comigo há anos. Quem era esse inglês para se manter entre nós? Eu lhes digo que tinha prioridade em relação a ela e só estava reclamando o que era meu.
– Ela escapou à sua influência quando descobriu o homem que você é – disse Holmes com rispidez. – Fugiu dos Estados Unidos para evitá-lo, e se casou com um cavalheiro respeitável na Inglaterra. Você a perseguiu, a seguiu, e transformou a vida dela num tormento para induzi-la a abandonar o marido, a quem amava e respeitava, para ir com você, de quem tinha medo e ódio. Você acabou levando à morte um homem nobre e induzindo sua mulher ao suicídio. Este é o seu papel neste negócio, sr. Abe Slaney, e vai responder por isto à justiça.
– Se Elsie morrer, não me importo com o que vier a acontecer comigo – disse o americano. Abriu uma das mãos e olhou para um bilhete amassado em sua palma. – Olhe aqui, senhor! – exclamou, com um brilho de suspeita nos olhos –, não está tentando me amedrontar com isto, está? Se a senhora está tão ferida quanto diz, quem foi que escreveu este bilhete? – Ele o jogou sobre a mesa.
– Eu o escrevi, para trazê-lo aqui.
– Você o escreveu? Não havia ninguém fora da União que conhecesse o segredo dos homenzinhos dançantes. Como conseguiu escrevê-lo?
– O que um homem inventa, outro pode descobrir – disse Holmes. – Há um carro chegando para transportá-lo até Norwich, sr. Slaney. Mas, enquanto isso, tem tempo para reparar um pouco do dano que causou. Sabe que a própria sra. Hilton Cubitt esteve sob séria suspeita de ter assassinado o marido, e que foi só a minha presença e o conhecimento que eu possuo que a salvaram da acusação? O mínimo que o senhor deve fazer por ela é esclarecer ao mundo inteiro que ela não foi, direta ou indiretamente, responsável pelo trágico fim dele.
– Não peço nada mais que isso – disse o americano. – Creio que o melhor que posso fazer por mim mesmo é a verdade nua e crua.
– É meu dever avisá-lo de que isto vai ser usado contra você – exclamou o inspetor, com a sublime honestidade da lei criminal britânica.
Slaney encolheu os ombros.
– Tentarei isso – disse. – Antes de qualquer coisa, quero que os cavalheiros entendam que conheço esta senhora desde que era uma criança. Éramos sete numa gangue em Chicago, e o pai de Elsie era o chefe da União. Era um homem esperto, o velho Patrick. Foi ele quem inventou aquela escrita, que passaria por um desenho de criança, a menos que se soubesse a chave dela. Bem, Elsie aprendeu alguns dos nossos métodos, mas não podia suportar o negócio, e tinha um pouco de seu próprio dinheiro honesto, então passou-nos a perna e foi para Londres. Era minha noiva e teria se casado comigo, acho, se eu tivesse outra profissão, mas ela não teria conhecido a desgraça. Só depois que havia casado com este inglês é que consegui descobrir onde estava. Escrevi para ela, mas não obtive resposta. Depois disso, vim para cá e, como as cartas eram inúteis, coloquei minhas mensagens em lugares onde ela poderia ler.
– Bem, estou aqui há 1 mês. Vivi naquela fazenda, onde tinha um quarto embaixo, e podia entrar e sair todas as noites, sem testemunhas. Fiz de tudo para que Elsie fosse embora. Sabia que lera as mensagens, pois uma vez escreveu uma resposta embaixo de uma delas. Então perdi a calma e comecei a ameaçá-la. Mandou-me uma carta, então, implorando que eu fosse embora, dizendo que seu coração ficaria partido se houvesse algum escândalo envolvendo seu marido. Disse que desceria quando o marido estivesse dormindo, às três horas, e falaria comigo pela janela de trás, se depois eu fosse embora e a deixasse em paz. Ela veio e trouxe dinheiro, tentando me convencer a ir embora. Isto me deixou louco e agarrei seu braço, tentando puxá-la através da janela. Naquele momento entrou o marido com o revólver na mão. Elsie jogou-se no chão, e nós ficamos cara a cara. Também me agachei e apontei minha arma, a fim de assustá-lo e poder fugir. Ele atirou e errou. Atirei quase ao mesmo tempo, e ele caiu. Saí correndo pelo jardim e ouvi a janela se fechar atrás de mim. Esta é a verdade de Deus, cavalheiros, cada palavra dela; e não ouvi mais nada sobre isso até que aquele rapaz veio me entregar um bilhete, que me fez vir até aqui, como um palerma, e me entregar em suas mãos.
Um carro havia chegado enquanto o americano falava. Dois policiais uniformizados estavam sentados lá dentro. O inspetor Martin levantou-se e bateu no ombro do seu prisioneiro.
– É hora de irmos.
– Posso vê-la primeiro?
– Não, ela não está consciente, sr. Sherlock Holmes, só espero que, se me aparecer novamente um caso importante, eu tenha a sorte de contar com o senhor a meu lado.