O visitante noturno era um jovem magro e fraco, com um bigode preto que realçava a palidez mortal do rosto. Não tinha muito mais de 20 anos. Nunca vi nenhum ser humano que parecesse sentir medo tão lastimável, pois seus dentes estavam batendo visivelmente, e todos os seus membros tremiam. Vestia-se como um cavalheiro, com um colete Norfolk, um calção folgado e um chapéu de pano na cabeça. Ficamos observando enquanto ele olhava em volta com expressão assustada. Depois deixou o castiçal sobre a mesa e desapareceu de nossa vista num dos cantos. Voltou com um livro grande, um dos diários de bordo que formavam uma fila na prateleira. Pôs o livro na mesa e virou rapidamente as folhas até que chegou ao que procurava. Então, com um gesto de raiva de suas mãos crispadas, fechou o livro, colocou-o de volta no canto e apagou a luz. Mal havia se virado para sair da cabana quando a mão de Hopkins agarrou o colarinho do sujeito, e ouvi seu arquejo alto de terror ao compreender que fora apanhado. A vela foi acesa de novo e lá estava nosso infeliz prisioneiro, tremendo e encolhido na mão do detetive. Ele se sentou sobre a arca e olhou indefeso para cada um de nós.

– Agora, meu camarada – disse Stanley Hopkins –, quem é você, e o que quer aqui?

O homem endireitou-se e nos encarou com um esforço de autocontrole.

– São detetives, eu suponho? – disse. – Imaginam que estou ligado à morte do capitão Peter Carey. Eu lhes garanto que sou inocente.

– Veremos isso – disse Hopkins. – Antes de mais nada, qual é o seu nome?

– É John Hopley Neligan.

Vi Holmes e Hopkins trocarem um rápido olhar.

– O que está fazendo aqui?

– Posso falar confidencialmente?

– Não, claro que não.

– Por que eu lhe diria?

– Se não tiver resposta, pode ser pior para você no julgamento.

O jovem estremeceu.

– Bem, eu lhes direi – concordou. – Por que não? E ainda assim odeio pensar neste velho escândalo ganhando uma nova vida. Já ouviu falar de Dawson e Neligan?

Pude ver, pelo rosto de Hopkins, que ele nunca ouvira, mas Holmes ficou muito interessado.

– Quer dizer os banqueiros do West Country – disse. – Eles faliram, arruinaram metade das famílias do condado de Cornwall e Neligan desapareceu.

– Exatamente. Neligan era meu pai.

Finalmente estávamos conseguindo algo positivo e mesmo assim parecia haver uma enorme distância entre um banqueiro foragido e o capitão Peter Carey pregado à parede com um de seus próprios arpões. Todos nós ouvimos atentamente as palavras do rapaz.

– Meu pai foi o verdadeiro atingido. Dawson se aposentara. Eu tinha apenas 10 anos de idade naquela época, mas era suficientemente crescido para sentir a vergonha e o horror de tudo aquilo. Sempre se disse que meu pai roubou todos os títulos e fugiu. Não é verdade. Ele acreditava que se lhe dessem tempo para vendê-los, tudo ficaria bem e todos os credores seriam pagos integralmente. Partiu em seu pequeno iate para a Noruega um pouco antes de ser expedido o seu mandado de prisão. Posso me lembrar da última noite, quando deu adeus à minha mãe. Ele nos deixou uma lista dos títulos que estava levando e jurou que voltaria com sua honra limpa, e que nenhum dos que confiaram nele iria sofrer. Bem, nunca mais se ouviu falar nele. Tanto ele como o iate sumiram completamente. Acreditávamos, minha mãe e eu, que os dois, com os títulos que levavam, estavam no fundo do mar. Mas tínhamos um amigo fiel, que é um homem de negócios, e foi ele quem descobriu pouco tempo atrás que alguns dos títulos que estavam com meu pai reapareceram no mercado de Londres. Vocês podem imaginar nossa surpresa. Passei meses procurando-os e por fim, depois de muitas dúvidas e dificuldades, descobri que o vendedor original fora o capitão Peter Carey, o dono desta cabana.

– Naturalmente fiz algumas investigações sobre o homem. Descobri que esteve no comando de uma baleeira que voltava dos mares do Ártico na mesma época em que meu pai atravessava para a Noruega. O outono daquele ano foi tempestuoso, e houve uma longa sucessão de ventos fortes ao sul. O iate de meu pai pode muito bem ter sido empurrado para o norte pelos ventos e lá ter sido encontrado pelo barco do capitão Peter Carey. Se foi assim, o que aconteceu com meu pai? De qualquer modo, se pudesse mostrar, pelo testemunho de Peter Carey, como estes títulos chegaram ao mercado, seria uma prova de que meu pai não os vendeu e que não visava ao lucro pessoal quando os levou.

– Vim para Sussex com a intenção de ver o capitão, mas foi nessa ocasião que ocorreu sua morte terrível. Li no inquérito uma descrição da cabine dele que dizia que velhos diários de bordo de sua embarcação eram conservados ali. Ocorreu-me que, se pudesse ver o que aconteceu no mês de agosto de 1883 a bordo do Sea Unicorn, poderia esclarecer o mistério do destino de meu pai. Na noite passada tentei chegar a esses diários, mas não consegui abrir a porta. Esta noite tentei de novo e consegui, mas descobri que as páginas relativas àquele mês haviam sido arrancadas do livro. Foi naquele momento que me vi prisioneiro em suas mãos.

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