– Como um meio de localizá-lo, se quisesse saber dele por intermédio de uma terceira pessoa. Essa era a razão óbvia. Bem, depois do assassinato, calculei que Beppo provavelmente iria acelerar e não retardar seus movimentos. Ficaria com receio de que a polícia descobrisse seu segredo, e então apressou-se antes que eles pudessem chegar à sua frente. É claro que eu não podia afirmar que ele não encontrara a pérola no busto de Harker. Eu nem mesmo tinha certeza de que era a pérola, mas era evidente para mim que ele procurava alguma coisa, já que passou com o busto por outras casas para quebrá-lo num jardim que tinha um poste. Como o busto de Harker era um de três, suas chances eram exatamente como lhes disse – 2 contra 1 para a pérola estar lá dentro. Então faltavam dois bustos, e era óbvio que ele iria primeiro para o busto de Londres. Avisei os moradores da casa, para evitar uma segunda tragédia, e fomos até lá, com os melhores resultados. Nessa ocasião, é claro, eu tinha certeza de que era a pérola dos Bórgias aquilo que estávamos procurando. O nome do homem assassinado ligava um fato ao outro. Só restava um busto – o de Reading – e a pérola tinha de estar lá. Eu o comprei do dono na presença de vocês – e aqui está.
Ficamos em silêncio por um instante.
– Bem – disse Lestrade –, já o vi lidar com muitos casos, sr. Holmes, mas nunca vi um tão primoroso como este. Não temos ciúmes do senhor na Scotland Yard. Não, estamos muito orgulhosos do senhor, e se for lá amanhã, não haverá um único homem, do inspetor mais antigo ao guarda mais novo, que não ficará contente em lhe apertar as mãos.
– Obrigado! – disse Holmes. – Obrigado! – e quando se virou, tive a impressão de que estava mais comovido pelas suaves emoções humanas do que jamais o vira. Logo depois, ele voltava a ser o pensador frio e prático de sempre. – Guarde a pérola no cofre, Watson – disse – e tire os papéis do caso de falsificação da Conk-Singleton. Adeus, Lestrade. Se esbarrar em algum probleminha, ficarei feliz se puder lhe dar uma ou duas pistas para a solução.
a aventura dos três estudantes
Foi no ano de 1895 que uma combinação de fatos, que não preciso mencionar, fez com que Sherlock Holmes e eu passássemos algumas semanas numa de nossas grandes cidades universitárias, e foi durante esse período que a pequena mas instrutiva aventura que estou prestes a relatar nos aconteceu. É óbvio que qualquer detalhe que ajudasse o leitor a identificar exatamente o colégio ou o criminoso seria imprudente e ofensivo. Um escândalo tão doloroso deve poder ser esquecido. Mas, com a devida discrição, o incidente pode ser descrito, já que serve para ilustrar algumas daquelas qualidades pelas quais meu amigo era notável. Tentarei, no meu relato, evitar termos que sirvam para limitar os acontecimentos a um lugar específico, ou dar uma pista sobre as pessoas envolvidas.
Estávamos morando naquela época em aposentos mobiliados perto de uma biblio-
teca onde Sherlock Holmes fazia algumas pesquisas trabalhosas em antigos documentos ingleses – pesquisas que levaram a resultados tão chocantes que podem até ser objeto de uma de minhas futuras narrativas. Assim estávamos, quando numa noite recebemos a visita de um conhecido, o sr. Hilton Soames, tutor e professor do Colégio de St. Luke. O sr. Soames era um homem alto e magro, de temperamento nervoso e excitável. Sempre soube que ele era irrequieto, mas nessa ocasião em particular estava numa agitação tão incontrolável que era evidente que algo incomum ocorrera.
– Espero, sr. Holmes, que possa dispor de algumas horas de seu valioso tempo. Tivemos um incidente muito doloroso em St. Luke, e na verdade, não fosse pelo feliz acaso de sua presença na cidade, eu não saberia o que fazer.
– Estou muito ocupado agora, e não quero ser perturbado – respondeu meu amigo. – Preferiria que pedisse a ajuda da polícia.
– Não, não, meu caro senhor; isso é totalmente impossível. Quando a lei é chamada, não se pode voltar atrás, e este é um daqueles casos em que, pela boa reputação do colégio, é essencial evitar um escândalo. Sua discrição é tão conhecida quanto seus talentos; o senhor é o único homem no mundo que pode me ajudar. Eu lhe imploro, sr. Holmes, que faça o que puder.
O estado de espírito do meu amigo não havia melhorado desde que fora privado da atmosfera familiar da Baker Street. Sem seus cadernos de anotações, seus produtos químicos e sua desorganização doméstica, era um homem desagradável. Encolheu os ombros numa concordância rude, enquanto nosso visitante despejava sua história com palavras apressadas e uma gesticulação agitada.