– Ninguém mais entrou no seu quarto?

– Não.

– Alguém mais sabia que essas provas estariam lá?

– Ninguém, a não ser o impressor.

– E esse homem, Bannister, sabia?

– Não, com certeza não. Ninguém sabia.

– Onde está Bannister agora?

– Estava muito mal, pobre rapaz. Deixei-o prostrado na cadeira. Estava com muita pressa para vir falar com o senhor.

– Deixou sua porta aberta?

– Tranquei os papéis antes.

– Então tudo se resume nisto, sr. Soames: que, a menos que o estudante indiano tenha reconhecido o maço como sendo as provas, o homem que as copiou encontrou-as por acaso, sem saber que estavam ali.

– Assim me parece.

Holmes deu um sorriso enigmático.

– Bem – disse –, vamos em frente. Não é um dos seus casos, Watson – mental, não físico. Está bem, venha, se quiser. Agora, sr. Soames – às suas ordens!

A sala de estar de nosso cliente se abria, por uma comprida janela baixa, de rótula, para o antigo pátio interno, coberto de líquens, da velha faculdade. Uma porta gótica, em arco, dava para uma escadaria de pedras gastas. No primeiro andar ficava a sala do tutor. Acima ficavam três estudantes, um em cada andar. Já estava escurecendo quando chegamos ao local do nosso problema. Holmes parou e olhou atentamente para a janela. Depois se aproximou, e, ficando na ponta dos pés com o pescoço espichado, olhou para dentro do quarto.

– Ele deve ter entrado pela porta. Não há passagem, a não ser a vidraça – disse o nosso guia.

– Pobre de mim! – disse Holmes, e sorriu de um modo estranho quando olhou para o nosso companheiro. – Bem, se não há nada que possamos extrair daqui, é melhor entrarmos.

O professor destrancou a porta externa e nos levou até seu quarto. Ficamos na entrada enquanto Holmes examinava o tapete.

– Acho que não existem marcas aqui – disse. – Dificilmente poderíamos esperar encontrar alguma num dia tão seco. Parece que seu criado se recuperou. Deixou-o numa cadeira, disse. Que cadeira?

– Perto da janela, ali.

– Sei. Perto desta pequena mesa. Podem entrar agora. Já terminei de examinar o tapete. Vamos pegar a mesinha primeiro. E claro, o que aconteceu está muito claro. O homem entrou e tirou os papéis, folha por folha, da mesa central. Colocou-os sobre a mesa da janela, porque de lá poderia ver se o senhor viesse pelo campo, e fugir.

– Na verdade, não poderia – disse Soames – porque entrei pela porta lateral.

– Ah, isso é ótimo! Bem, de qualquer modo, era essa a idéia dele. Deixe-me ver as três folhas. Nenhuma impressão digital – nenhuma! Bem, ele pegou esta primeira e a copiou. Quanto tempo levaria para fazer isso, usando toda limitação possível? Quinze minutos, não menos. Depois a deixou cair e pegou a seguinte. Estava no meio desta quando seu retorno o obrigou a uma retirada muito apressada – muito apressada, pois não teve tempo de pôr novamente no lugar os papéis que poderiam revelar que estivera ali. Não ouviu passos apressados na escada ao entrar pela porta externa?

– Não, não posso dizer que ouvi.

– Bem, ele escreveu tão furiosamente que quebrou o lápis, e teve, como observam, de apontá-lo de novo. Isto é interessante, Watson. O lápis não era desses comuns. Era maior que o tamanho comum, com a ponta macia, a cor externa era azul-escuro, o nome do fabricante estava impresso em letras prateadas, e o pedaço remanescente tem apenas cerca de 3 centímetros de comprimento. Procure um lápis assim, sr. Soames, e terá o seu homem. Quando eu acrescentar que ele tem uma faca larga e muito afiada, terá uma ajuda adicional.

O sr. Soames ficou meio atordoado com esta enxurrada de informações. – Posso compreender os outros pontos – disse – mas, realmente, nesta questão do comprimento...

Holmes pegou um pequeno fragmento com as letras NN e um espaço claro de madeira depois deles.

– Vê?

– Não, acho que mesmo agora...

– Watson, sempre cometi uma injustiça com você. Existem outros. O que poderia ser este NN? Está no final de uma palavra. O senhor sabe que Johann Faber é o mais famoso nome de fabricante. Não está claro que o que foi deixado do lápis é o que termina o Johann? – Aproximou a mesinha da luz elétrica. – Eu achava que se o papel  no qual ele escreveu fosse fino, poderia ter ficado alguma marca nesta face polida. Não, não vejo nada. Não creio que haja algo mais para ser visto aqui. Agora, a mesa central. Esta bolinha é, presumo, a massa pastosa e preta de que me falou. Vejo que é quase piramidal na forma e escavada. Como diz, parece haver grãos de pó de serra nela. Ah, isto é muito interessante. E o corte – um rasgão mesmo, pelo que vejo. Começa com um fino arranhão e termina num buraco fundo. Estou muito grato ao senhor por chamar minha atenção para este caso, sr. Soames. Para onde dá aquela porta?

– Para o meu quarto.

– Já esteve lá desde sua aventura?

– Não, saí diretamente para procurar o senhor.

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