– Sou a esposa de sir Eustace Brackenstall. Estive casada durante um ano, mais ou menos. Acho que não adianta tentar esconder que nosso casamento não era feliz. Receio que todos os nossos vizinhos lhe digam isso, mesmo que eu tentasse negar. Talvez a culpa em parte fosse minha. Fui educada na atmosfera mais livre e menos convencional do sul da Austrália, e esta vida inglesa, com suas formalidades e sua rigidez, não é adequada para mim. Mas o motivo principal está no fato, conhecido de todos, de que sir Eustace era um bêbado inveterado. Estar com um homem assim durante uma hora é desagradável. Pode imaginar o que significa, para uma mulher sensível e decidida, estar presa a ele noite e dia? É um sacrilégio, um crime, uma infâmia dizer que um casamento assim é obrigatório. Digo que estas suas leis monstruosas atrairão uma maldição sobre a terra – Deus não permitirá que essa perversidade continue. – Por um momento ela se sentou, ruborizada, e seus olhos brilhavam abaixo da terrível marca na sobrancelha. Depois a mão forte e suave da criada austera acomodou sua cabeça na almofada, e o ódio selvagem transformou-se num soluço impetuoso. Por fim continuou:

– Eu lhes contarei sobre a noite passada. Talvez os senhores saibam que nesta casa todos os criados dormem na ala nova. Este bloco central inclui os aposentos principais, com a cozinha nos fundos e nosso quarto em cima. Minha criada, Theresa, dorme no quarto acima do meu. Não há mais ninguém, e nenhum som poderia alertar aqueles que estão na ala mais distante. Os ladrões deviam saber disso, ou não teriam agido do modo como fizeram.

– Sir Eustace foi para o quarto por volta de 22:30h. Os criados já tinham se retirado para seus aposentos. Apenas minha empregada estava de pé, e permanecia em seu quarto no alto da casa até que eu precisasse de seus serviços. Fiquei sentada neste quarto até depois das 23 horas, entretida com um livro. Então dei uma volta para ver se tudo estava em ordem antes de subir. Era meu costume fazer isso pessoalmente, pois, como já expliquei, nem sempre era possível confiar em sir Eustace. Entrei na cozinha, na copa, na sala de armas, sala de bilhar, sala de visitas, e, finalmente, na sala de jantar. Ao me aproximar da janela, coberta com cortinas grossas, senti de repente o vento soprar no meu rosto, e percebi que estava aberta. Puxei a cortina para o lado e me vi cara a cara com um homem idoso de ombros largos, que acabara de entrar na sala. A janela é grande, do tipo porta-janela, que na verdade é uma porta que dá para o jardim. Estava segurando a vela do quarto acesa e, com sua luz, vi atrás do homem dois outros, prestes a entrar. Dei um passo para trás, mas o sujeito me alcançou num instante. Segurou-me primeiro pelo pulso e depois pela garganta. Abri a boca para gritar, mas ele me deu um golpe violento com o punho no olho e me derrubou no chão. Devo ter ficado inconsciente por alguns minutos porque, quando voltei a mim, descobri que haviam cortado a corda da campainha, e me amarrado bem firme à cadeira de carvalho que fica na cabeceira da mesa de jantar. Estava tão firmemente atada que não podia me mover, e um lenço em minha boca me impedia de emitir qualquer som. Foi nesse instante que meu marido entrou na sala. Evidentemente ouvira algum som suspeito e veio preparado para a cena que encontrou. Estava vestido com uma camisa de dormir e calças, com seu porrete favorito, de ameixeira brava, na mão. Arremeteu contra os assaltantes, mas um outro – era o velho – abaixou-se, pegou o atiçador da lareira e deu-lhe uma pancada horrível ao passar por ele. Caiu com um gemido e não se moveu mais. Desmaiei de novo, mas deve ter sido também por apenas alguns minutos, durante os quais estive insensível. Quando abri os olhos, descobri que haviam recolhido a prataria do aparador e bebido uma garrafa de vinho que ficava lá. Cada um deles tinha uma garrafa na mão. Já lhes disse, creio, que um era idoso, com uma barba, e os outros jovens, calvos. Devem ser o pai e seus dois filhos. Conversaram entre eles, sussurrando. Depois se aproximaram e se certificaram de que eu estava bem presa. Finalmente, foram embora, fechando a janela atrás deles. Quase 15 minutos depois consegui arrancar o lenço da boca. Quando fiz isso, meus gritos atraíram a criada. Os outros criados foram logo avisados e enviados para chamar a polícia local, que na mesma hora informou Londres. Isto é realmente tudo o que posso lhes contar, cavalheiros, e espero que não seja necessário repetir essa história tão dolorosa mais uma vez.

– Alguma pergunta, sr. Holmes? – disse Hopkins.

– Não vou impor mais nenhum sacrifício à paciência e ao tempo de Lady Brackenstall – disse Holmes. – Antes de ir para a sala de jantar, gostaria de ouvir sua experiência. – Olhou para a criada.

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