– O que aconteceu depois disso parece um pesadelo. Vi um rosto moreno e louco, transtornado, ouvi uma voz de mulher que gritava em francês: “Minha espera não foi em vão. Afinal, afinal encontrei você com ela!” Houve uma luta feroz. Eu o vi com uma cadeira na mão, uma faca brilhava na dela. Fugi correndo da cena horrível, da casa, e somente na manhã seguinte, no jornal, é que soube do desfecho terrível. Aquela noite eu estava feliz porque tinha a minha carta, e ainda não sabia o que o destino iria trazer.

– Foi na manhã seguinte que percebi que apenas trocara um problema por outro. A angústia de meu marido com a perda do documento me doeu no coração. Mal pude me controlar para não me ajoelhar diante dele e lhe contar o que havia feito. Mas isso seria de novo uma confissão do passado. Vim procurar o senhor naquela manhã para compreender a plena dimensão do meu ato. Desde o instante em que compreendi, eu só pensava em trazer de volta o papel do meu marido. Ainda devia estar no lugar onde Lucas o colocara, porque fora escondido antes que aquela mulher horrível entrasse na sala. Não fosse a chegada dela, eu não saberia onde ficava o esconderijo. Como eu poderia entrar na sala? Durante dois dias fiquei vigiando o lugar, mas a porta nunca foi deixada aberta. Na noite passada fiz minha última tentativa. O que fiz e como me saí o senhor já sabe. Trouxe o papel de volta e pensei em destruí-lo, já que não via um jeito de devolvê-lo sem confessar ao meu marido a minha culpa. Céus, ouço seus passos na escada!

O secretário para Assuntos Europeus entrou agitado na sala.

– Alguma novidade, sr. Holmes, alguma novidade? – exclamou.

– Tenho algumas esperanças.

– Ah, graças aos céus! – Seu rosto ficou radiante. – O primeiro-ministro vai almoçar comigo. Posso contar a ele sobre as suas esperanças? Ele tem nervos

de aço, mas sei que mal tem conseguido dormir desde esse incidente terrível. Jacobs, poderia pedir ao primeiro-ministro para subir? Quanto a você, querida, este é um assunto político. Espere na sala de jantar. Estaremos lá daqui a alguns minutos.

A atitude do primeiro-ministro era controlada, mas pude ver pelo brilho de seus olhos e pelo tremor de suas mãos ossudas que estava tão excitado quanto seu jovem colega.

– Creio que tem algo a contar, sr. Holmes?

– Puramente negativo por enquanto – respondeu meu amigo. – Investiguei cada ponto onde poderia estar, e tenho certeza de que não há perigo algum a temer.

– Mas isso não é suficiente, sr. Holmes. Não podemos viver eternamente nesse vulcão. Precisamos ter algo definitivo.

– Tenho esperanças de consegui-lo. É por isso que estou aqui. Quanto mais penso no assunto, mais fico convencido de que a carta nunca saiu desta casa.

– Sr. Holmes!

– Se tivesse saído, a esta altura já teria sido publicada, com certeza.

– Mas por que alguém a pegaria para deixá-la em sua própria casa?

– Não tenho certeza de que alguém a pegou.

– Então como ela pode ter saído da caixa de correspondência?

– Não estou convencido de que ela chegou a sair da caixa de correspondência.

– Sr. Holmes, esta brincadeira é muito importuna. Eu lhe asseguro que a carta saiu da caixa.

– O senhor examinou a caixa desde terça de manhã?

– Não. Não foi necessário.

– Provavelmente apenas deu uma olhada superficial.

– Impossível, eu afirmo.

– Mas não estou convencido disso. Sei que essas coisas acontecem. Presumo que haja outros papéis ali. Ora, pode ter sido misturada com os outros.

– Estava bem em cima.

– Alguém pode ter sacudido a caixa e tê-la tirado do lugar.

– Não, não, estava tudo em ordem.

– Bem, isto pode ser resolvido facilmente, Hope – disse o primeiro-ministro. – Traga a caixa de correspondência.

O secretário tocou a campainha.

– Jacobs, traga minha caixa de correspondência. Isto é uma perda de tempo idiota, mas, se nada mais irá convencê-lo, isso será feito. Obrigado, Jacobs,

ponha-a aqui. Sempre guardei a chave na corrente do meu relógio. Aqui estão os papéis, veja. Carta do lorde Merrow, relatório de sir  Charles Hardy, memorando de Belgrado, notas sobre as taxas de grãos russo-germânicas, carta de Madri, bilhete do lorde Flowers – Meu Deus! O que é isto? Lorde Bellinger! Lorde Bellinger!

O primeiro-ministro viu o envelope azul na mão dele.

– Sim, é ele – e a carta está intacta. Hope, eu lhe dou os parabéns.

Obrigado! Obrigado! Que peso me tirou do coração. Mas isto é inconcebível... é impossível. Sr. Holmes, o senhor é um feiticeiro, um adivinho! Como descobriu que estava aqui?

– Porque sabia que não estava em nenhum outro lugar.

– Não consigo acreditar em meus olhos! – Ele correu para a porta.

– Onde está minha esposa? Preciso dizer-lhe que está tudo bem. Hilda! Hilda! – ouvimos sua voz nas escadas.

O primeiro-ministro olhou para Holmes piscando os olhos.

– Ora, senhor – disse. – Há mais coisa nisso do que aquilo que parece à primeira vista. Como é que a carta voltou para a caixa?

Holmes desviou-se sorridente do exame atento daqueles olhos cintilantes.

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