Eram quase quatro horas quando a porta se abriu e entrou um cavalariço com aparência de embriagado, sujo e barbado, com o rosto inflamado e roupas vergonhosas. Embora acostumado com os espantosos poderes de disfarce de meu amigo, tive de olhar três vezes antes de me convencer que era ele mesmo. Com um gesto de cabeça, desapareceu no quarto, de onde saiu cinco minutos depois, respeitável novamente em um temo de tweed. Com as mãos nos bolsos, esticou as pernas em frente da lareira e riu alegremente por uns minutos.

- Realmente - exclamou, e engasgou; e riu de novo até ser forçado a se recostar na cadeira, exausto.

- O que foi?

- É muito engraçado. Estou certo de que você não pode adivinhar como passei a manhã e o que fiz.

- Não posso nem imaginar. Suponho que estava observando os costumes e talvez a casa da Srta. Irene Adler.

- Isso mesmo, mas os acontecimentos foram bastante insólitos. Vou lhe contar. Saí de casa pouco após oito horas esta manhã, como um cavalariço desempregado. Existe grande compreensão e união entre homens que lidam com cavalos. Seja um deles, e saberá tudo que está acontecendo. Achei Briony Lodge sem dificuldade. É uma pequena e requintada vila, com um jardim nos fundos, de dois andares, com a frente rente à rua. Uma boa fechadura na porta. Grande salão à direita, bem mobiliado, com longas janelas indo quase até o chão e aqueles ferrolhos ingleses absurdos que até uma criança pode abrir. Nos fundos não havia nada especial, só que a janela da passagem pode ser alcançada do telhado da cocheira. Andei em volta e examinei-a de todos os lados, mas não vi nada mais de interessante.

- Desci então a rua e encontrei, como esperava, uma estrebaria num beco que corre ao lado de um dos muros do jardim. Ajudei os cavalariços a tratar dos cavalos e recebi em troca dois penies, um copo de cerveja, dois pacotes de fumo picado e toda a informação que poderia desejar sobre a Srta. Adler, para não mencionar uma meia dúzia de pessoas na vizinhança que não me interessavam nem um pouco, mas cujas biografias tive de ouvir em detalhe.

- E quanto a Irene Adler? - perguntei.

- Ah, enlouqueceu todos os homens por aqueles lados. É a coisa mais linda do planeta. Assim dizem todos os homens da Estrebaria Serpentina. Vive pacatamente, canta em concertos, sai para dar um passeio todas as tardes às cinco horas e volta às sete em ponto para jantar. Raramente sai em outras horas, exceto quando está cantando. Tem somente um visitante, mas esse é muito freqüente. É moreno, bonito e arrojado; vai lá todos os dias pelo menos uma vez, muitas vezes duas. É o Sr. Godflrey Norton, advogado da Corte. Veja a vantagem de fazer amizade com um cocheiro de aluguel. Em casa uma dúzia de vezes e sabia tudo sobre ele. Quando ouvi tudo que tinha a dizer, andei de um lado a outro perto de Briony mais uma vez para planejar minha campanha.

- Godfrey Norton era evidentemente um fator importante. É advogado. Isso é de mau agouro. Qual seria o relacionamento dos dois e qual o objetivo das visitas constantes? Ela seria sua cliente, sua amiga ou sua amante? Se fosse a primeira, provavelmente teria transferido a fotografia para as mãos dele. Se fosse a última, isso era menos provável. A resposta a essa pergunta decidiria se eu devia continuar meu trabalho em Briony Lodge ou desviar minha atenção para os aposentos do cavalheiro. Era uma questão delicada, e ampliava o campo de investigação. Receio ser maçante com todos esses detalhes, mas tenho de lhe mostrar esses pequenos problemas para que você compreenda a situação.

- Sou todo atenção - respondi.

- Pesava os fatos mentalmente quando um cabriolé parou em frente de Briony Lodge e saltou um cavalheiro. Era um homem extremamente bonito, moreno, de feições aquilinas e bigode... evidentemente o homem que haviam mencionado. Parecia estar com grande pressa, gritou ao cocheiro que esperasse e passou rapidamente pela empregada que abrira a porta com o ar de um homem que estava perfeitamente em casa.

- Ficou na casa aproximadamente meia hora e pude entrevê-lo pelas janelas do salgo, passeando de um lado para o outro, falando excitadamente e gesticulando com os braços. Não consegui vê-la. Depois ele saiu, parecendo mais apressado que antes. Ao entrar no cabriolé, puxou um relógio do bolso e consultou-o.

- Dirija como um demônio, - gritou - primeiro para Gross e Hankey na Regent Street e depois para a Igreja de Sta. Mônica na Edgware Road. - Meio guinéu se fizer isso em vinte minutos!

- Lá se foram e estava pensando se devia segui-los quando surgiu no beco um pequeno e elegante landau, o cocheiro ainda meio desabotoado, com a gravata completamente torta e as pontas dos arreios fora das fivelas. Nem chegou a parar, ela saiu correndo pela porta e se atirou dentro. Só a vi um instante, mas era uma mulher linda, um homem morreria de bom grado por seu rosto. - À Igreja de Sta. Mônica, Jolin, - exclamou - e uma libra em ouro se chegar lá em vinte minutos.

Перейти на страницу:

Все книги серии Aventura

Похожие книги