Desde aquela noite em que regressei a casa após ter sido despedida, tive várias vezes essa sensação. Fazia sentido no meu bairro do sul do Bronx, onde provavelmente há assaltantes em cada esquina, prontos a atacar se eu aparentasse ter algum dinheiro, mas não aqui. Não num dos bairros mais elegantes de Manhattan.

Antes de entrar no prédio de apartamentos, viro-me para olhar para trás. Há dúzias de pessoas a circular na rua, mas nenhuma me presta atenção. Existem muitas pessoas singulares e interessantes a caminhar pelas ruas de Manhattan, e eu não sou uma delas. Não há razões para alguém estar a olhar para mim.

Então vejo o carro.

É um Mazda preto familiar. Provavelmente, há milhares de carros iguais na cidade, mas, ao observá-lo, tenho uma estranha sensação de déjà vu. Demoro um segundo a perceber porquê.

O carro tem o farol direito rachado. Tenho a certeza de que vi um Mazda preto com o farol direito rachado estacionado perto do meu prédio de apartamentos no sul do Bronx.

Não vi?

Espreito pelo para-brisas. O carro está vazio. Baixo o olhar para ver a matrícula. É de Nova Iorque – nada de entusiasmante aí. Tiro um momento para a memorizar: 58F321. A matrícula não me diz nada, mas, se o voltar a ver, lembrar-me-ei.

– Menina? – chama o porteiro, arrancando-me do meu transe. – Vai entrar?

– Oh! – tusso para a mão. – Sim. Sim, desculpe lá.

Entro no átrio do edifício. Em vez de ter luzes no teto, o

vestíbulo é iluminado por candelabros e candeeiros nas laterais das paredes que pretendem assemelhar-se a tochas. O teto baixo curva-se numa cúpula, o que me dá a ligeira sensação de estar a entrar num túnel. Obras de arte adornam as paredes, todas provavelmente de valor incalculável.

– Quem vem visitar, menina? – pergunta-me o porteiro.

– Os Garrick. Vinte A.

– Ah! – pisca-me o olho. – A penthouse.

Oh, fantástico – uma família penthouse. Por que me dou sequer ao trabalho?

Depois de ligar para cima para confirmar a minha entrevista, o porteiro tem de entrar no elevador e introduzir uma chave especial para eu poder subir à penthouse. Depois de as portas do elevador se fecharem, faço um rápido inventário à minha aparência. Aliso o meu cabelo louro, que prendi atrás num puxo simples. Trago o meu melhor par de calças pretas e um colete de malha. Começo a ajeitar o peito, mas então reparo que há uma câmara no elevador e prefiro não proporcionar um espetáculo ao porteiro.

As portas do elevador abrem diretamente para o átrio da penthouse dos Garrick. Ao sair, respiro fundo e quase consigo cheirar a riqueza no ar. É uma combinação de água de colónia cara e notas de cem dólares novas. Por um momento, fico no átrio, sem saber muito bem se me devo aventurar sem ser formalmente recebida, pelo que, ao invés, foco a minha atenção num pedestal branco exibindo uma estátua cinzenta que é essencialmente apenas uma grande pedra vertical lisa – do tipo que se poderia encontrar em qualquer parque da cidade. Ainda assim, provavelmente vale mais do que tudo o que alguma vez tive no mundo.

– Millie? – oiço uma voz segundos antes de um homem se materializar no átrio. – Millie Calloway?

Foi o Sr. Garrick quem me convidou para a entrevista de hoje. É invulgar ser contactada pelo homem da casa. Quase 100% dos meus principais empregadores no ramo das limpezas têm sido mulheres. Mas o Sr. Garrick parece ansioso por me cumprimentar. Entra apressadamente no átrio com um sorriso nos lábios, de mão já estendida.

– Senhor Garrick? – pergunto.

– Por favor – diz ao deslizar a sua mão forte para a minha –, trate-me por Douglas.

Douglas Garrick parece exatamente o tipo de homem que se esperaria que vivesse numa penthouse no Upper West Side. Está no início dos quarenta e é atraente naquele estilo clássico, cinzelado. Veste um fato que parece extremamente caro e tem o cabelo castanho-escuro lustroso e habilmente cortado e arranjado. Os seus profundos olhos castanhos são astutos e estabelecem precisamente a medida certa de contacto visual com os meus.

– Prazer em conhecê-lo... Douglas – digo.

– Muito obrigado por ter vindo hoje – Douglas Garrick sorri com gratidão enquanto me conduz à ampla sala de estar. – Geralmente, é a minha mulher, a Wendy, quem trata das tarefas domésticas. Orgulha-se de tentar fazer tudo sozinha, mas não se tem sentido bem, por isso insisti em arranjar alguma ajuda.

A sua última afirmação parece-me estranha. Normalmente, as mulheres que vivem em apartamentos enormes como este não «tentam fazer tudo» sozinhas. Por regra, têm criadas para as criadas.

– Claro – respondo. – Disse que procurava alguém para

cozinhar e limpar...?

Anui.

– As tarefas domésticas gerais, como limpar o pó, arrumar e, claro, tratar da roupa. E preparar as refeições algumas noites por semana. Acha que isso seria um problema?

– De modo algum – estou disposta a aceitar praticamente tudo. – Há muitos anos que limpo apartamentos e casas. Posso trazer os meus próprios produtos de limpeza e...

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