– Não, isso não será necessário – interrompe-me Douglas. – A minha mulher... A Wendy é muito exigente em relação aos produtos de limpeza. É sensível aos cheiros, sabe? Desencadeiam os seus sintomas. Tem de usar os nossos produtos de limpeza especiais, caso contrário...

– Com certeza – assinto. – Como quiser.

– Maravilhoso. – Os seus ombros relaxam. – E precisaríamos que começasse de imediato.

– Não há problema.

– Ótimo, ótimo – Douglas sorri, apologético. – Porque, como pode ver, esta casa está a modos que uma confusão.

Ao entrar na sala de estar, assimilo o que me rodeia. Tal como o resto do edifício, este apartamento faz-me sentir como se tivesse sido transportada para o passado. Salvo o deslumbrante sofá de cabedal, a maioria da mobília parece ter sido construída há centenas de anos e depois cristalizada no tempo para ser especialmente transportada para esta sala de estar. Se soubesse mais sobre decoração de interiores, talvez fosse capaz de identificar que a mesa de café foi talhada à mão no início do século XX ou que a estante com as portas de vidro veio, sei lá, do período do revivalismo neoclássico francês ou algo assim. Tudo o que sei dizer ao certo é que cada peça custou uma pequena fortuna.

E outra coisa que sei é que este apartamento não está uma confusão. Está o oposto disso. Se começasse a limpar, nem sei bem o que faria. Precisaria de um microscópio para encontrar uma partícula de pó.

– Posso começar quando quiser – digo cuidadosamente.

– Fantástico – responde Douglas, acenando em aprovação. – Apraz-me muito ouvir isso. Porque não nos sentamos para podermos conversar mais a fundo?

Sento-me ao lado de Douglas no sofá modular, afundando-me no cabedal macio. Oh, meu Deus, é a coisa mais agradável que alguma vez senti contra a minha pele. Podia deixar o Brock e casar antes simplesmente com este sofá e todas as minhas necessidades seriam satisfeitas.

O Douglas fita-me atentamente com os seus olhos profundos sob um par de densas sobrancelhas castanho-escuras.

– Fale-me de si, então, Millie.

Aprecio que, desde o início, não tenha havido qualquer indício de sedução na sua voz. Os seus olhos mantêm-se respeitosamente fixos nos meus e não descem para os meus seios ou pernas. Só por uma vez me envolvi com o meu patrão e nunca, nunca, mais volto a seguir por esse caminho. Preferia arrancar os meus próprios dentes com um alicate.

– Bem – pigarreio. – Atualmente, ando na faculdade comunitária. Planeio tornar-me assistente social, mas entretanto trabalho para pagar os estudos.

– Isso é admirável – sorri, mostrando uma fila de dentes brancos e direitos. – E tem experiência a cozinhar?

Aquiesço.

– Cozinhei para muitas das famílias para quem trabalhei. Não sou profissional, mas tive algumas aulas. Além disso... – olho em redor, incapaz de ver quaisquer brinquedos ou sinais de que viva aqui uma criança. – Tomo conta de crianças.

O Douglas estremece.

– Isso não será necessário.

Retraio-me, amaldiçoando a minha grande boca. Não falou em cuidar de crianças. Provavelmente, fiz-lhe lembrar alguns horríveis problemas de infertilidade.

– Desculpe – peço.

Encolhe os ombros.

– Não faz mal. Que tal uma visita guiada?

A penthouse dos Garrick envergonha o mega apartamento de Amber. É uma espécie completamente diferente de apartamento. A sala de estar é, pelo menos, do tamanho de uma piscina olímpica. Ao canto, há um bar com meia dúzia de bancos vintage instalados à volta. Apesar do tema antiquado da sala de estar, a cozinha tem todos os eletrodomésticos mais recentes, incluindo, estou certa, o melhor desidratador do mercado.

– Deve ter aqui tudo o que precisa – diz-me Douglas, varrendo com a mão a vasta extensão da cozinha.

– Parece perfeito – respondo, cruzando os dedos para que o forno traga algum tipo de manual que explique o que faz cada um dos mais de vinte botões no mostrador.

– Excelente – diz. – Agora, deixe-me mostrar-lhe o segundo andar.

Segundo andar?

Os apartamentos em Manhattan não têm dois andares. Mas, aparentemente, este tem. Douglas leva-me numa visita guiada ao andar de cima, mostrando-me pelo menos meia dúzia de quartos. O quarto principal é tão grande que preciso de uns binóculos para ver a cama king sise na outra ponta do espaço. Há uma divisão inteiramente de livros, que me faz vagamente recordar aquela cena de A Bela e o Monstro em que a Bela é levada à biblioteca. Outra divisão parece incluir uma parede cheia de almofadas. Suponho que seja o quarto das almofadas.

Depois de me levar a uma divisão que contém o que deve ser uma lareira artificial, e em que uma das paredes é toda ela uma enorme janela com uma vista arrebatadora do horizonte de Nova Iorque, chegamos a uma derradeira porta. Hesita, o punho erguido para bater.

– Este é o nosso quarto de hóspedes – informa-me. – A Wendy tem estado aqui a recuperar. Provavelmente, devia deixá-la descansar.

– Lamento saber que a sua mulher está doente – digo.

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