A sudoeste, encontrou um portão aberto flanqueado por um par de crânios de animais enfiados na ponta de grandes mastros: um urso de um lado e um carneiro do outro. Jon notou que pedaços de carne ainda se prendiam ao crânio de urso quando se juntou à fileira de cavaleiros que passava por ele. Lá dentro, os batedores de Jarmen Buckwell e homens da vanguarda de Thoren Smallwood estavam instalando amarradouros para cavalos e lutando para erguer tendas. Um grande grupo de leitões fuçava em volta de três enormes porcas no chiqueiro. Ali perto, uma menina pequena arrancava cenouras de um jardim, nua sob a chuva, enquanto duas mulheres amarravam um porco para a matança. Os guinchos do animal eram agudos e horríveis, quase humanos na sua aflição. Os cães de Chett desataram a latir desenfreadamente em resposta, rosnando e dando mordidas, apesar das pragas do rapaz, com um par de cães de Craster respondendo aos latidos com mais latidos. Quando viram Fantasma, alguns dos cães calaram-se e fugiram, enquanto outros começaram a ladrar-lhe e a rosnar. O lobo gigante ignorou-os, assim como Jon.
O Senhor Comandante confiou a montaria a Edd Doloroso, que limpava lama dos cascos do cavalo quando Jon desmontou.
– Lorde Mormont está no edifício – Edd anunciou. – Disse para você se juntar a ele. É melhor deixar o lobo aqui fora, ele parece suficientemente faminto para comer um dos filhos de Craster. Bem, para falar a verdade,
Jon sorriu.
– Bem, ouvi dizer que ele está aqui há muito tempo.
– Não me anima. Vai lá encontrar o Velho Urso.
– Fantasma, fica – Jon ordenou. A porta da Fortaleza de Craster era feita de duas abas de pele de veado. Jon enfiou-se entre elas, abaixando-se para passar sob o batente baixo. Duas dúzias dos principais patrulheiros tinham-no precedido e estavam em pé, em volta da fogueira no centro do chão de terra, enquanto poças cresciam em volta das suas botas. O salão fedia a fuligem, esterco e cães molhados. O ar estava pesado de fumaça, mas de algum modo mantinha-se úmido. Entrava chuva pelo buraco para a saída da fumaça que havia no telhado. Era uma sala única, com um sótão para dormir em cima, ao qual se chegava por um par de escadas lascadas.
Jon recordou como se sentira no dia em que tinham partido da Muralha, nervoso como uma donzela, mas ansioso por ver os mistérios e maravilhas que se escondiam para lá de cada novo horizonte.
Craster estava sentado na frente da fogueira, o único homem a desfrutar de uma cadeira individual. Até o Senhor Comandante Mormont tinha de se sentar no banco comum, com o corvo resmungando sobre seu ombro. Jarman Buckwell estava em pé, atrás dele, com a cota de malha remendada pingando e o couro molhado e brilhante, ao lado de Thoren Smallwood, que usava a placa de peito e o manto debruado de zibelina do falecido Sor Jaremy.
O justilho de pele de ovelha e o manto de peles cosidas de Craster contrastavam pobremente, mas em torno de um dos seus grossos pulsos havia uma pulseira pesada que tinha o brilho do ouro. Aparentava ser um homem poderoso, embora já bem avançado no inverno dos seus dias, com a cabeleira cinza tornando-se branca. Um nariz achatado e uma boca descaída davam-lhe um aspecto cruel, e tinha uma orelha a menos.
– Há três anos que não vejo Benjen Stark – estava dizendo a Mormont. – E para falar a verdade, nunca senti falta dele – meia dúzia de cachorros filhotes pretos e um ou dois porcos ocultavam-se por entre os bancos, enquanto mulheres vestidas com esfarrapadas peles de veado distribuíam cornos de cerveja, avivavam o fogo e cortavam cenouras e cebolas para dentro de uma caldeira.