– Um bastardo – Jon completou, com uma gargalhada. – Pode falar, Sam. Já tinha ouvido a palavra – esporeou seu pequeno garrano de patas seguras. – Tenho de ir atrás de Sor Ottyn. Tenha cuidado perto das mulheres de Craster – como se Samwell Tarly precisasse ser avisado disso. – Conversamos mais tarde, depois de termos montado o acampamento.
Jon levou a notícia a Sor Ottyn Wythers, que avançava penosamente com a retaguarda. Homem pequeno, com cara de ameixa seca e a mesma idade de Mormont, Sor Ottyn parecia sempre cansado, mesmo em Castelo Negro, e a chuva o derrubara sem misericórdia.
– Notícias bem-vindas – o velho disse. – Esta umidade empapou meus ossos e até minhas dores de sela queixam-se de dores de sela.
No caminho de volta, Jon afastou-se da linha de marcha da coluna e seguiu por um caminho mais curto através da floresta densa. Os sons de homens e cavalos diminuíram, engolidos pela úmida natureza verde, e em pouco tempo tudo o que ouvia era o contínuo bater da chuva contra folhas, madeira e rochas. Era o meio da tarde, mas a floresta parecia tão escura como se fosse o anoitecer. Jon abriu caminho por entre rochedos e poças d’água, passando por grandes carvalhos, árvores-sentinela cinza-esverdeadas e árvores de pau-ferro de casca negra. Em certos lugares, os ramos teciam uma abóbada por cima dele e era-lhe dado um momento de alívio do tamborilar da chuva na sua cabeça. Ao passar por um castanheiro abatido por um relâmpago e coberto de rosas selvagens brancas, ouviu qualquer coisa restolhando na vegetação rasteira.
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Mas foi Dywen quem emergiu do verde, trazendo pela trela um garrano cinza felpudo, com Grenn montado a seu lado. O Velho Urso dispusera batedores de ambos os lados da coluna principal, a fim de ocultar sua marcha e preveni-los da aproximação de algum inimigo, e mesmo nisso não correra riscos, enviando os homens aos pares.
– Ah, é você, Lorde Snow – Dywen sorriu um sorriso de carvalho; seus dentes tinham sido esculpidos em madeira e estavam mal assentados na sua boca. – Pensei que eu e o rapaz teríamos que lidar com um daqueles Outros. Perdeu o lobo?
– Saiu para caçar – Fantasma não gostava de viajar com a coluna, mas não devia estar longe. Quando montassem o acampamento para a noite, encontraria o caminho de volta para junto de Jon na tenda do Senhor Comandante.
– Nesta umidade, eu chamo isso de pescar – Dywen respondeu.
– Minha mãe sempre disse que a chuva era boa para fazer crescer a safra – interveio Grenn com otimismo.
– Sim, uma boa safra de bolor – Dywen rebateu. – A melhor coisa de uma chuva como essa é que livra um homem de tomar banho – completou, e fez um estalido com seus dentes de madeira.
– Buckwell encontrou Craster – Jon lhes disse.
– Tinha-o perdido? – Dywen soltou um risinho. – Vocês, seus cabras novos, vejam se não vão farejar em volta das mulheres de Craster, estão ouvindo?
Jon sorriu.
– Quer ficar com todas para si, Dywen?
Dywen fez mais estalidos com os dentes.
– Talvez queira. Craster tem dez dedos e um pau, portanto não sabe contar até mais do que onze. Nunca dará falta de um par delas.
– Quantas mulheres ele tem realmente? – Grenn quis saber.
– Mais do que você jamais terá, irmão. Bem, não é assim tão difícil quando se faz criação delas. Ali está o seu bicho, Snow.
Fantasma trotava ao lado do cavalo de Jon, com a cauda bem erguida e o pelo branco levantado em tufos espessos contra a chuva. Deslocava-se tão silenciosamente que Jon não saberia dizer quando tinha surgido. A montaria de Grenn recuou ao sentir seu cheiro; mesmo agora, após mais de um ano, os cavalos sentiam-se desconfortáveis na presença do lobo gigante.
– Vem comigo, Fantasma – Jon esporeou o cavalo e dirigiu-se à Fortaleza de Craster.
Nunca pensara encontrar um castelo de pedra do outro lado da Muralha, mas tinha imaginado