Enquanto se ajoelhava para esfolar o coelho, Sam tirou as botas.

– Acho que tem musgo crescendo entre os meus dedos – o jovem gordo declarou em tom fúnebre, mexendo os dedos. – O coelho vai ficar bom. Nem me importo com o sangue e tudo o mais – ele afastou os olhos. – Bem, só um pouquinho…

Jon enfiou o coelho num espeto, limitou a fogueira com um par de pedras e equilibrou a refeição em cima delas. O coelho era uma tanto descarnado, mas enquanto assava cheirava como um banquete de rei. Outros patrulheiros deram-lhes olhares invejosos. Até Fantasma levantava a cabeça com ar faminto, com as chamas brilhando nos seus olhos vermelhos enquanto farejava.

– Já comeu o seu – Jon lembrou-lhe.

– Craster é tão selvagem como os patrulheiros dizem? – Sam quis saber. O coelho estava um pouco malpassado, mas tinha um gosto maravilhoso. – Como é o castelo dele?

– Um monte de estrume com um telhado e um buraco para a fumaça sair – Jon contou a Sam o que tinha visto e ouvido na Fortaleza de Craster.

Quando terminou a história, lá fora estava escuro e Sam lambia os dedos.

– Isso estava gostoso, mas agora tenho vontade de uma perna de carneiro. Uma perna inteira, só para mim, com molho de menta, mel e cravo. Viu carneiros?

– Havia um curral, mas sem ovelhas.

– Como é que ele alimenta todos os seus homens?

– Não vi homem nenhum. Só Craster, suas mulheres e algumas meninas pequenas. Espanta-me que ele seja capaz de manter o lugar. As defesas não são nada que valha a pena mencionar, só um dique lamacento. É melhor que vá até a casa e desenhe o mapa. Consegue encontrar o caminho?

– Se não cair na lama...

Sam voltou a calçar as botas com dificuldade e, munido de pena e pergaminho, penetrou na noite, com a chuva tamborilando no seu manto e no chapéu mole.

Fantasma apoiou a cabeça nas patas e adormeceu junto à fogueira. Jon estendeu-se a seu lado, grato pelo calor. Sentia-se frio e molhado, mas não tão frio nem tão molhado como se sentira pouco tempo antes. Talvez esta noite o Velho Urso fique sabendo de alguma coisa que nos leve ao Tio Benjen.

A primeira coisa que viu quando acordou foi sua respiração formando névoa no ar frio da manhã. Quando se moveu, seus ossos doeram. Fantasma tinha desaparecido e a fogueira apagara-se. Jon estendeu o braço para afastar o manto que tinha pendurado no rochedo, e o sentiu rígido e congelado. Rastejou por baixo dele e ficou em pé numa floresta transformada em cristal.

A pálida luz rosada da alvorada cintilava em galhos, folhas e pedras. Cada folha de mato estava esculpida em esmeralda, cada gota d’água tinha se transformado em diamante. Tanto as flores como os cogumelos usavam casacos de vidro. Mesmo as poças de lama tinham um brilhante reflexo marrom. Por entre o verde cintilante, as tendas negras dos seus irmãos estavam revestidas por um fino esmalte de gelo.

No fim das contas, há magia para lá da Muralha. Deu por si pensando nas irmãs, talvez porque tivesse sonhado com elas na noite anterior. Sansa chamaria aquilo de um encantamento, e lágrimas encheriam seus olhos perante aquela maravilha, mas Arya correria aos risos e aos gritos, querendo tocar em tudo.

– Lorde Snow? – Jon ouviu uma voz chamar, suave e submissa, e se virou.

A guardadora de coelhos estava acocorada no topo do rochedo que o abrigara durante a noite, enrolada num manto negro tão grande que a submergia. O manto de Sam, Jon percebeu de imediato. Por que ela o está usando?

– O gordo disse-me que o encontraria aqui, senhor.

– Comemos o coelho, se é isso que veio procurar – admitir aquilo fez Jon sentir-se absurdamente culpado.

– O velho Lorde Corvo, aquele que tem o pássaro falante, deu a Craster uma besta que vale cem coelhos – os braços da menina se cruzaram sobre a barriga inchada. – É verdade, senhor? É irmão de um rei?

– Meio-irmão – Jon admitiu. – Sou bastardo de Ned Stark. Meu irmão Robb é Rei do Norte. Por que está aqui?

– O gordo, o tal do Sam, disse para vir falar com o senhor. Deu-me este manto, para que ninguém dissesse que não pertenço a este lugar.

– Craster não vai ficar zangado com você?

– Meu pai bebeu demais do vinho do Lorde Corvo na noite passada. Vai passar a maior parte do dia dormindo – a respiração dela congelava no ar em pequenas nuvens nervosas. – Dizem que o rei faz justiça e protege os fracos – ela começou a descer o rochedo, desajeitadamente, mas o gelo tornara-o escorregadio e seu pé deslizou. Jon apanhou-a antes que caísse e a ajudou a descer o resto em segurança. A mulher ajoelhou no chão gelado. – Senhor, suplico-lhe…

– Não me suplique nada. Volte para sua casa, não devia estar aqui. Foi-nos ordenado que não falássemos com as mulheres de Craster.

– Não tem de falar comigo, senhor. Só me leve com você quando partir, é tudo o que peço.

Tudo o que ela pede, Jon pensou. Como se não fosse nada.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже