– Eu… eu serei sua mulher, se quiser. Meu pai agora tem dezenove, uma a menos não lhe fará falta.
– Os irmãos negros juram nunca tomar esposas, não sabia? E, além disso, somos hóspedes na casa do seu pai.
–
– Nem sequer sei o seu nome.
– Ele chamou-me de Goiva. Vem da flor de goivo.
– É bonito – Jon se lembrou de Sansa, quando lhe disse, um dia, que devia dizer aquilo sempre que uma senhora revelasse seu nome. Não podia ajudar a moça, mas talvez a cortesia lhe agradasse. – É Craster quem a assusta, Goiva?
– É pelo bebê, não por mim. Se for uma menina não é muito ruim, crescerá durante alguns anos e depois ele casa com ela. Mas Nella diz que vai ser um menino, e ela teve seis, e sabe dessas coisas. Ele dá os garotos aos deuses. Quando chega o frio branco, faz isso, e nos últimos tempos tem chegado mais vezes. Foi por isso que começou a dar-lhes ovelhas, apesar de gostar de carne de carneiro. Só que agora já não há ovelhas. A seguir vão ser os cães, até… – abaixou os olhos e afagou a barriga.
– Que deuses? – Jon estava se lembrando que não tinham visto meninos na Fortaleza de Craster e também nenhum homem além do próprio Craster.
– Os deuses frios – ela respondeu. – Os da noite. As sombras brancas.
De repente, Jon imaginou-se de volta à Torre do Senhor Comandante. Uma mão cortada subia pela barriga da sua perna e, quando a afastou com a ponta da espada, ela ficou se contorcendo, com os dedos abrindo e fechando. O homem morto levantou-se, com os olhos azuis brilhando naquela cara talhada e inchada. Cordões de carne rasgada pendiam do grande ferimento que tinha na barriga, mas não havia sangue.
– De que cor são os seus olhos? – Jon perguntou à menina.
– Azuis. Brilhantes como estrelas azuis, e tão frios como elas.
– Vai me levar? Só até a Muralha…
– Não nos dirigimos para a Muralha. Vamos para o norte, atrás de Mance Rayder e desses Outros, dessas sombras brancas e das suas criaturas. Nós os estamos
O medo dela era claro em seu rosto.
– Mas voltará. Quando a luta terminar, voltará a passar por aqui.
– Talvez –
– Não – Jon conseguia ouvir a derrota na voz dela. – Desculpe por tê-lo incomodado, senhor. Eu só… dizem que o rei mantém as pessoas a salvo, e pensei… – desesperada, fugiu, com o manto de Sam pairando atrás dela como grandes asas negras.
Jon ficou vendo a menina partir, desaparecida sua alegria com a beleza quebradiça da manhã.
Outros homens engatinhavam para fora dos seus abrigos, bocejando e espreguiçando-se. A magia já tinha se desvanecido, com o brilho do gelo transformado em orvalho comum à luz do sol nascente. Alguém tinha acendido uma fogueira; conseguia sentir o cheiro de fumaça que pairava entre as árvores e o odor defumado de toucinho. Jon desprendeu o manto e bateu com ele na rocha, despedaçando a fina crosta de gelo que se formara durante a noite. Depois, pegou Garralonga e enfiou um braço em uma correia de ombro. A alguns metros dali, urinou contra um arbusto gelado, com a urina fumegando no ar frio e derretendo o gelo onde caía. Depois, amarrou os calções de lã negra e seguiu os cheiros.
Grenn e Dywen encontravam-se entre os irmãos que tinham se reunido em volta da fogueira. Hake entregou a Jon uma fatia de pão cheia de toucinho queimado e pedaços de peixe salgado aquecido na gordura do toucinho. Devorou-a enquanto ouvia Dywen gabar-se de ter tido três das mulheres de Craster durante a noite.
– Não teve nada – Grenn quis desmenti-lo, fechando o cenho. – Se tivesse, eu teria visto.
Dywen deu uma pancada na sua orelha com as costas da mão.
– Você? Teria visto? Você é tão cego quanto Meistre Aemon. Nem sequer viu aquele urso.
– Que urso? Teve um urso?
– Sempre tem um urso – Edd Doloroso declarou, no seu tom habitual de melancólica resignação. – Um matou meu irmão quando eu era novo. Depois, usei os dentes dele em volta do pescoço numa tira de couro. E eram bons dentes, melhores do que os meus. Só tive problemas com meus dentes.
– Sam dormiu no salão na noite passada? – Jon lhe perguntou.