– Q-que significa isto? Sou um velho, seu servo leal…

Tyrion içou-se para cima da cama.

– Tão leal que enviou apenas uma de minhas cartas a Doran Martell. A outra entregou à minha irmã.

– N-não – Pycelle guinchou. – Não, é uma falsidade, juro, não fui eu. Varys, foi Varys, a Aranha, eu avisei…

– Será que todos os meistres mentem tão mal assim? Eu disse a Varys que ia dar ao Príncipe Doran meu sobrinho Tommen para criar. Disse a Mindinho que planejava casar Myrcella com Lorde Robert no Ninho da Águia. Não disse a ninguém que tinha oferecido Myrcella aos Dorne… Essa verdade encontrava-se apenas na carta que confiei ao senhor.

Pycelle agarrou-se a um canto do cobertor.

– As aves se perdem, as mensagens são roubadas ou vendidas… Foi Varys. Há coisas que poderia lhe dizer sobre esse eunuco que gelariam seu sangue…

– Minha senhora prefere meu sangue quente.

– Não se iluda, para cada segredo que o eunuco murmura ao seu ouvido, retém sete. E Mindinho, esse…

– Sei tudo sobre Lorde Petyr. É quase tão indigno de confiança quanto você. Shagga, corte seu membro viril e o dê às cabras.

Shagga levantou o enorme machado de lâmina dupla.

– Não há cabras, Meio Homem.

– Vire-se com o que houver.

Rugindo, Shagga saltou. Pycelle soltou um guincho e molhou a cama, fazendo a urina jorrar em todas as direções quando tentou se encolher e ficar fora de alcance. O selvagem o agarrou pela ponta da revolta barba branca e cortou três quartos dela com um único golpe de machado.

– Timett, acha que nosso amigo será mais cooperativo sem essa barba atrás da qual se esconde? – Tyrion usou um pedaço do lençol para limpar a urina das botas.

– Ele vai contar a verdade em breve – a escuridão enchia o poço vazio do olho queimado de Timett. – Consigo cheirar o fedor do seu medo.

Shagga atirou um punhado de cabelo nas esteiras, e agarrou a barba que restava.

– Fique quieto, meistre – Tyrion pediu. – Quando Shagga se irrita, suas mãos tremem.

– As mãos de Shagga nunca tremem – ecoou o enorme homem num tom indignado, empurrando a grande lâmina em forma de crescente contra o queixo trêmulo de Pycelle e cortando mais um emaranhado de pelos.

– Há quanto tempo espiona para minha irmã? – Tyrion perguntou.

A respiração de Pycelle era rápida e superficial:

– Tudo o que fiz foi pela Casa Lannister – uma película de suor cobria a larga cúpula da cabeça do velho, e madeixas de cabelo branco aderiam à sua pele enrugada. – Sempre… durante anos… o senhor seu pai, pergunte-lhe, fui sempre seu servo fiel… fui eu quem pediu a Aerys para abrir os portões…

Aquilo pegou Tyrion de surpresa. Não era mais do que um menino feio em Rochedo Casterly quando a cidade caiu.

– Então o Saque de Porto Real também foi obra sua?

– Pelo reino! Uma vez morto Rhaegar, a guerra estava terminada. Aerys era louco; Viserys, novo demais; Príncipe Aegon, um bebê de colo, mas o reino necessitava de um rei… Rezei para que fosse seu pai, mas Robert era forte demais, e Lorde Stark movimentou-se muito depressa…

– Pergunto a mim mesmo quantos já traiu. Aerys, Eddard Stark, eu… Rei Robert também? Lorde Arryn, Príncipe Rhaegar? Onde começa, Pycelle? – Tyrion sabia onde acabava.

O machado arranhou o pomo de adão de Pycelle e atingiu a suave pele trêmula sob o queixo, raspando os últimos pelos.

– Você… não estava aqui – o homem arquejou quando a lâmina subiu até suas bochechas. – Robert… os seus ferimentos… se os tivesse visto e cheirado, não teria nenhuma dúvida…

– Ah, eu sei que o javali fez o trabalho por você… mas se o animal tivesse deixado o trabalho meio feito, sem dúvida você o teria terminado.

– Ele era um rei deplorável… fútil, bêbado, libertino… Teria posto sua irmã de lado, sua própria rainha… Por favor… Renly estava conspirando para trazer a donzela de Jardim de Cima para a corte, para seduzir o irmão… É a verdade dos deuses…

– E o que conspirava Lorde Arryn?

– Ele sabia – Pycelle começou a responder. – Que… que…

– Eu sei o que ele sabia – Tyrion o interrompeu, sem muita vontade que Shagga e Timett também descobrissem.

– Ele ia enviar a esposa de volta para o Ninho da Águia, e o filho para ser criado em Pedra do Dragão… Pretendia agir…

– Portanto, envenenou-o primeiro.

Não.

Pycelle debateu-se debilmente. Shagga rosnou e agarrou-o pela cabeça. A mão do homem dos clãs era tão grande que podia ter esmagado o crânio do meistre como uma casca de ovo. Tyrion deu um estalido com a língua.

– Eu vi as lágrimas de Lys entre as suas poções. Mandou embora o meistre de Lorde Arryn e cuidou dele em pessoa, para que pudesse se assegurar de que morria.

– Uma falsidade!

– Barbeie-o melhor – sugeriu Tyrion. – De novo a garganta.

O machado voltou a descer, raspando a pele. Uma fina película de cuspe borbulhou nos lábios de Pycelle quando sua boca tremeu.

– Tentei salvar Lorde Arryn. Juro…

– Cuidado, Shagga, você o cortou.

Shagga soltou um rosnado.

– Dolf gerou guerreiros, não barbeiros.

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