Encontraram um pouco de ouro, um pouco de prata, uma grande saca de moedas de cobre, e uma taça chanfrada incrustada de granadas, pela qual dois soldados quase chegaram às vias de fato. Ficaram sabendo que Lorde Beric tinha consigo dez mortos de fome, ou então uma centena de cavaleiros montados; que tinha partido para o Oeste, ou para o Norte, ou para o Sul; que tinha atravessado o lago num barco; que estava forte como um auroque, ou fraco por causa do sangue que perdera. Ninguém sobrevivia aos interrogatórios do Cócegas; fossem homens, mulheres ou crianças. Os mais fortes duravam até depois do cair da noite. Seus corpos eram pendurados para lá das fogueiras, para os lobos.
Quando se puseram em marcha, Arya sabia que não era nenhuma dançarina de água. Syrio Forel nunca teria permitido que o derrubassem e roubassem sua espada, nem ficaria sem ação enquanto matavam Lommy Mãos-Verdes. Syrio nunca teria ficado sentado, em silêncio, naquele armazém, nem teria se arrastado docilmente por entre os outros cativos. O lobo gigante era o símbolo dos Stark, mas Arya sentia-se mais como uma ovelha, rodeada por uma manada de outras iguais. Odiava os aldeãos por sua falta de coragem, quase tanto quanto odiava a si mesma.
Os Lannister tinham lhe roubado tudo: pai, amigos, casa, esperança, coragem. Um roubara-lhe a Agulha, enquanto o outro quebrara sua espada de madeira no joelho. Tinham até lhe tirado o estúpido segredo. O armazém era suficientemente grande para ela se esgueirar até um canto qualquer e urinar quando ninguém estivesse olhando, mas na estrada era diferente. Aguentou-se o máximo que pôde, mas, por fim, teve de se acocorar perto de um arbusto e abaixar as calças na frente de todo mundo. Era isso, ou molhar-se toda. Torta Quente ficou de boca aberta, olhando para ela com grandes olhos de lua, mas ninguém mais se incomodou. Ovelha menina ou ovelha menino, Sor Gregor e seus homens não pareciam se importar.
Os captores não autorizavam conversas. Um lábio rachado ensinou Arya a dominar a língua. Outros não chegaram a aprender. Um garoto de um grupo de três não parava de chamar pelo pai, e esmagaram sua cabeça com uma maça de guerra. Então, a mãe do garoto desatou a gritar, e Raff, o Querido, a matou também.
Arya os viu morrer, e não fez nada. De que servia ter coragem? Uma das mulheres escolhidas para o interrogatório tentou ter coragem, mas morreu aos gritos como todos os outros. Não havia gente de coragem naquela marcha, só gente assustada e faminta. A maioria era de mulheres e crianças. Os poucos homens eram muito velhos ou muito novos; o resto tinha sido acorrentado àquele cadafalso e abandonado aos lobos e aos corvos. Gendry só foi poupado porque admitira ter sido ele quem forjou o elmo dos chifres; ferreiros, e até aprendizes de ferreiro, eram valiosos demais para matar.
A Montanha disse-lhes que estavam sendo levados para servir a Lorde Tywin Lannister em Harrenhal.
– São traidores e rebeldes, por isso agradeçam aos deuses que Lorde Tywin esteja lhes dando essa oportunidade. É mais do que obteriam dos foras da lei. Obedeçam, sirvam, e sobreviverão.
– Não é justo, não é – ouviu uma velha mirrada queixar-se a outra depois de se deitarem à noite. – Não cometemos traição nenhuma, os outros vieram e levaram o que quiseram, tal como estes.
– Mas Lorde Beric não nos fez mal nenhum – sussurrou a amiga. – E aquele sacerdote vermelho que vinha com ele pagou por tudo o que levaram.
– Pagou? Levou duas das minhas galinhas e me deu um pedaço de papel com uma marca nele. Pergunto a você: posso comer um pedaço de papel esfarrapado? Bota ovos, o papel? – olhou em volta para ver se não havia guardas por perto, e cuspiu três vezes: – Isto é para os Tully, isto é para os Lannister, e isto é para os Stark.
– É um pecado e uma pena – sibilou um velho. – Quando o velho rei ainda estava vivo, não teria admitido isso.
– Rei Robert? – Arya perguntou, quebrando sua reserva.
– O Rei Aerys, que os deuses o tenham – o velho respondeu, alto demais. Um guarda se aproximou vagarosamente a fim de calá-los. O velho perdeu ambos os dentes que tinha, e não houve mais conversas naquela noite.
Além dos cativos, Sor Gregor levava também uma dúzia de porcos, uma gaiola de galinhas, uma vaca leiteira esquelética e nove carroças de peixe salgado. A Montanha e seus homens tinham cavalos, mas os cativos iam todos a pé, e aqueles fracos demais para caminhar eram imediatamente mortos, assim como quem fosse suficientemente tolo para tentar fugir. Os guardas levavam mulheres para os arbustos, à noite, e a maior parte parecia esperar isso, e os acompanhava com bastante docilidade. Uma moça, mais bonita do que as outras, era obrigada a ir com quatro ou cinco homens diferentes todas as noites, até que acabou batendo num deles com uma pedra. Sor Gregor obrigou todo mundo a assistir enquanto cortava sua cabeça com um golpe da sua imensa espada longa de duas mãos.
– Deixe o corpo para os lobos – ele ordenou quando terminou, entregando a espada para o escudeiro limpar.