Quando sentiu o sangue escorrer pelo pescoço e para o peito, o velho estremeceu e as últimas forças o abandonaram. Parecia encolhido, menor e mais frágil do que quando caíram sobre si.

– Sim – choramingou –, sim. Colemon o estava purgando, e por isso mandei-o embora. A rainha precisava de Lorde Arryn morto, ela não disse em palavras, não podia, Varys estava ouvindo, sempre ouvindo, mas quando a olhei, compreendi. Mas não fui eu quem lhe deu o veneno, juro – o velho desatou a chorar. – Varys dirá, foi o rapaz, o escudeiro, chamava-se Hugh, deve ter sido ele, certamente, pergunte à sua irmã, pergunte.

Tyrion sentiu-se repugnado.

– Amarre-o e o leve daqui – ordenou. – Atire-o em uma das celas negras.

Arrastaram-no pela porta estilhaçada.

– Lannister – gemeu o velho –, tudo o que fiz foi pelos Lannister.

Depois que ele saiu, Tyrion calmamente fez uma busca nos aposentos e recolheu mais alguns pequenos frascos das prateleiras. Os corvos resmungavam por cima de sua cabeça enquanto trabalhava, um ruído estranhamente pacífico. Precisaria encontrar alguém para cuidar das aves até que a Cidadela enviasse um homem para substituir Pycelle.

Era nele que eu esperava confiar. Suspeitava que Varys e Mindinho não eram mais leais, apenas mais sutis, e por isso mais perigosos. O jeito do pai talvez tivesse sido o melhor: chamar Ilyn Payne, montar três cabeças sobre os portões e encerrar o assunto. E não seria essa uma bela visão?, pensou.

Arya

O medo corta mais profundamente do que as espadas, dizia Arya a si mesma, mas aquilo não fazia com que a sensação de temor desaparecesse. Fazia tanto parte dos seus dias como pão bolorento e as bolhas nos pés, depois de um longo dia de caminhada pela estrada dura e sulcada.

Achava que sabia o que era estar assustada, mas tinha aprendido melhor naquele armazém junto ao Olho de Deus. Permaneceu lá oito dias antes de a Montanha dar a ordem de marcha, e todos os dias viu alguém morrer.

A Montanha chegava ao armazém depois do desjejum e escolhia um dos prisioneiros para interrogatório. As pessoas da aldeia não o olhavam. Talvez pensassem que se não o vissem, ele não as veria… Mas via-as de qualquer jeito, e escolhia quem quisesse. Não havia esconderijos, não havia truques a usar, não havia como estar a salvo.

Uma moça dividiu a cama com um soldado durante três noites consecutivas; a Montanha a escolheu no quarto dia, e o soldado nada disse.

Um velho sorridente remendava suas roupas e tagarelava a respeito do filho que estaria a serviço dos mantos dourados em Porto Real.

– É um homem do rei, ah, pois é – dizia –, um bom homem do rei como eu, todo por Joffrey – dizia isso com tanta frequência que os outros cativos começaram a chamá-lo de Todo-por-Joffrey sempre que os guardas não estavam ouvindo. Todo-por-Joffrey foi escolhido no quinto dia.

Uma jovem mãe com o rosto marcado pela varíola tinha se oferecido para lhes contar voluntariamente tudo o que sabia se prometessem não fazer mal à sua filha. A Montanha a ouviu, e, na manhã seguinte, escolheu a filha, para se assegurar de que a mulher não tinha guardado nada para si.

Os escolhidos eram interrogados à vista dos outros prisioneiros, para que estes vissem o destino reservado aos rebeldes e traidores. Um homem a que os outros chamavam Cócegas fazia as perguntas. Tinha um rosto tão comum e trajes tão simples, que Arya podia ter achado que fosse um dos aldeãos antes de vê-lo trabalhando.

– O Cócegas os faz uivar tanto que se mijam – falara-lhe o velho corcunda Chiswyck. Era o homem que ela tentara morder, aquele que dissera que ela era feroz, e esmagara um punho revestido de cota de malha na sua cabeça. Às vezes ajudava o Cócegas. Às vezes eram outros a fazê-lo. O próprio Sor Gregor Clegane ficava em pé, imóvel, observando e escutando, até a vítima morrer.

As perguntas eram sempre as mesmas. Havia ouro escondido na aldeia? Prata, pedras preciosas? Havia mais comida? Onde estava Lorde Beric Dondarrion? Qual dos moradores da aldeia o tinha ajudado? Quando ele partiu, para que lado tinha ido? Quantos homens estavam com ele? Quantos cavaleiros, quantos arqueiros, quantos homens de armas? Como estavam armados? Quantos estavam montados? Quantos estavam feridos? Que outros inimigos tinham visto? Quantos? Quando? Que estandartes hasteavam? Para onde tinham ido? Havia ouro escondido na aldeia? Prata, pedras preciosas? Onde estava Lorde Beric Dondarrion? Quantos homens estavam com ele? Pelo terceiro dia, Arya já poderia ela mesma fazer as perguntas.

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