Enquanto as aias a enxugavam com uma toalha e a envolviam num roupão de sedareia, os pensamentos de Dany derivaram para os três que a tinham procurado na Cidade dos Ossos.
Era quase noite, Dany estava alimentando os dragões, quando Irri atravessou as cortinas de seda para lhe dizer que Sor Jorah voltara das docas… e não vinha sozinho.
– Mande-o entrar, com quem quer que tenha trazido – ela ordenou, curiosa.
Quando entraram, encontraram-na sentada num monte de almofadas, com os dragões ao redor. O homem que o exilado trouxera consigo usava um manto de penas verdes e amarelas e tinha uma pele tão negra como azeviche polido.
– Vossa Graça – disse o cavaleiro –, trago Quhuru Mo, capitão do
O negro se ajoelhou.
– Sinto-me muito honrado, minha rainha – ele disse; não na língua das Ilhas do Verão, que Dany não conhecia, mas no valiriano líquido das Nove Cidades Livres.
– A honra é minha, Quhuru Mo – ela retrucou na mesma língua. – Vem das Ilhas do Verão?
– É verdade, Vossa Graça, mas, antes, há menos de meio ano, aportamos em Vilavelha. Daí lhe trago um maravilhoso presente.
– Um presente?
– Um presente em forma de notícia. Mãe de Dragões, Filha da Tormenta, digo-lhe a verdade, Robert Baratheon está morto.
Fora dos muros o ocaso caía sobre Qarth, mas um sol acabava de nascer no coração de Dany.
– Morto? – ela repetiu. Sobre as suas coxas o negro Drogon silvou, e uma fumaça branca ergueu-se em frente ao seu rosto como um véu. – Tem certeza? O Usurpador está morto?
– É o que se diz em Vilavelha, e em Dorne, e em Lys, e em todos os outros portos a que aportamos.
– De que modo morreu? – sobre seu ombro o branco Viserion bateu as asas da cor do creme, agitando o ar.
– Rasgado por um javali monstruoso enquanto caçava em seu bosque do rei, ou pelo menos foi o que me disseram em Vilavelha. Outros dizem que a sua rainha o traiu, ou o irmão, ou Lorde Stark, que era sua Mão. Mas todas as histórias concordam numa coisa: o Rei Robert está morto e sepultado.
Dany nunca olhara o rosto do Usurpador, mas raramente se passava um dia em que não pensasse nele. Sua grande sombra pairava sobre ela desde a hora em que tinha nascido, quando chegara entre sangue e tempestade a um mundo que já não tinha lugar para ela. E, agora, este estranho de ébano levantava essa sombra.
– O garoto agora ocupa o Trono de Ferro – disse Sor Jorah.
– O Rei Joffrey reina – concordou Quhuru Mo –, mas os Lannister governam. Os irmãos de Robert fugiram de Porto Real. Segundo se diz, pretendem reclamar a coroa. E a Mão caiu, Lorde Stark, que era amigo do Rei Robert. Foi preso e acusado de traição.
– Ned Stark, um traidor? – Sor Jorah resfolegou. – Pouco provável. O Longo Verão voltará antes que este manche sua preciosa honra.
– Que honra poderá ter? – disse Dany. – Era um traidor do seu legítimo rei, tal como esses Lannister – agradava-lhe ouvir dizer que os cães do Usurpador lutavam uns contra os outros, embora não a surpreendesse. O mesmo tinha acontecido quando seu Drogo morreu e seu grande
– Então choro pela senhora, Mãe de Dragões, e pelo ensanguentado Westeros, privado do seu legítimo rei.
Sob os dedos gentis de Dany, o verde Rhaegal olhou o estranho com olhos de ouro derretido. Quando abriu a boca, os dentes cintilaram como agulhas negras.
– Quando seu navio retorna a Westeros, capitão?
– Temo que só dentro de um ano, ou mais. Daqui, o
– Compreendo – disse Dany, desapontada. – Nesse caso, desejo-lhe belos ventos e bons negócios. Trouxe-me um presente precioso.
– Fui amplamente recompensado, grande rainha.
Dany não compreendeu aquilo.
– Como?
Os olhos dele cintilaram:
– Vi dragões.
Dany soltou uma gargalhada.
– E voltará a vê-los um dia, espero. Venha até mim em Porto Real quando estiver no trono do meu pai, e obterá uma grande recompensa.