– Não a machucaria. Ele sabe que gosto de você – todos os outros senhores e cavaleiros partiram um ou dois dias após a festa das colheitas, mas os Reed permaneceram e se transformaram em constantes companheiros de Bran. Jojen era tão solene que a Velha Ama o chamava de “pequeno avô”, mas Meera lembrava-lhe a irmã, Arya. Não tinha medo de se sujar, e podia correr, lutar e arremessar coisas tão bem como um rapaz. Mas era mais velha do que Arya; tinha quase dezesseis anos, uma mulher-feita. Eram ambos mais velhos do que Bran, embora o nono dia de seu nome já tivesse finalmente chegado e partido, mas nunca o tratavam como uma criança. – Gostaria que fossem vocês os nossos protegidos, em vez dos Walder – pôs-se a caminho da árvore mais próxima. O modo como se arrastava e contorcia era feio de se ver, mas quando Meera foi ajudá-lo a se erguer, ele disse: – Não, não me ajude – rolou desajeitadamente, empurrou e torceu-se para trás, usando a força dos braços, até ficar sentado com as costas apoiadas no tronco de um freixo alto. – Viu, eu disse – Verão deitou-se com a cabeça apoiada nas coxas de Bran. – Nunca conhecera alguém que lutasse com uma rede – disse a Meera enquanto fazia carinho entre as orelhas do lobo gigante. – Foi seu mestre de armas quem lhe ensinou a luta de rede?

– Foi meu pai quem me ensinou. Não temos cavaleiros em Água Cinzenta. Nem mestre de armas, e também não temos meistre.

– Quem cuida de seus corvos?

Ela sorriu:

– Os corvos não são mais capazes de encontrar a Atalaia da Água Cinzenta do que os nossos inimigos.

– Por que não?

– Porque ela se desloca.

Bran nunca tinha ouvido falar de um castelo móvel. Olhou-a com incerteza, mas não conseguiu decidir se ela estava caçoando dele ou não.

– Gostaria de poder vê-lo. Acha que o senhor seu pai me deixaria ir visitá-los quando a guerra terminar?

– Será muito bem-vindo, meu príncipe. Nessa altura, ou agora.

Agora? – Bran passara a vida inteira em Winterfell. Ansiava por ver lugares distantes. – Podia pedir a Sor Rodrik quando ele voltar.

O velho cavaleiro tinha partido para leste, a fim de tentar contornar os problemas que lá existiam. O bastardo de Roose Bolton começara tudo ao capturar a Senhora Hornwood quando regressava da festa das colheitas, casando com ela naquela mesma noite, embora fosse suficientemente novo para ser seu filho. Então, Lorde Manderly tomou o castelo dela e, a fim de proteger os bens dos Hornwood contra os Bolton, tinha escrito, mas Sor Rodrik ficara quase tão zangado com ele como com o bastardo.

– Sor Rodrik talvez me deixe ir. Meistre Luwin nunca deixaria.

Sentado de pernas cruzadas sob o represeiro, Jojen Reed olhou-o solenemente.

– Seria bom se abandonasse Winterfell, Bran.

– Seria?

– Sim. E quanto mais depressa melhor.

– Meu irmão tem a visão verde – disse Meera. – Ele sonha com coisas que não aconteceram, mas que às vezes acontecem.

– Não há às vezes nisto, Meera – um olhar passou entre eles; o dele triste, o dela desafiador.

– Diga-me o que vai acontecer – Bran pediu.

– Direi – o menino falou –, se me contar os seus sonhos.

O bosque sagrado caiu no silêncio. Bran conseguia ouvir o restolhar das folhas, e o som distante de Hodor brincando nas lagoas quentes. Pensou no homem dourado e no corvo de três olhos, recordou o esmagar de ossos entre as suas maxilas e o gosto de cobre do sangue.

– Não tenho sonhos. Meistre Luwin dá-me poções para dormir.

– E ajudam?

– Às vezes.

Meera interveio:

–Winterfell inteira sabe que você acorda à noite gritando e transpirando, Bran. As mulheres falam disso junto ao poço e os guardas também, em suas salas.

– Conte-nos o que o assusta tanto – Jojen pediu.

– Não quero. Seja como for, são só sonhos. Meistre Luwin diz que os sonhos nem sempre querem dizer alguma coisa.

– Meu irmão sonha como os outros garotos, e esses sonhos podem querer dizer qualquer coisa – Meera explicou –, mas os sonhos verdes são diferentes.

Os olhos de Jojen eram da cor do musgo, e às vezes, quando se fixavam, pareciam estar vendo alguma outra coisa. Como acontecia agora.

– Sonhei com um lobo alado preso à terra por correntes de pedra cinza – ele disse. – Era um sonho verde, por isso soube que era verdade. Um corvo estava tentando quebrar suas correntes com bicadas, mas a pedra era dura demais, e seu bico só conseguia arrancar lascas.

– O corvo tinha três olhos?

Jojen confirmou com a cabeça.

Verão ergueu a cabeça do colo de Bran e olhou o menino da lama com seus escuros olhos dourados.

– Quando eu era pequeno, quase morri de febre da água cinzenta. Foi então que o corvo veio até mim.

– Ele veio até mim depois de eu cair – disse Bran, muito depressa. – Dormi durante muito tempo. Ele disse que eu tinha de voar ou morreria, e eu acordei, mas estava aleijado, e não podia voar.

– Pode, se quiser – pegando a rede, Meera sacudiu os últimos nós e começou a arrumá-la em dobras soltas.

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