O anão leu suas esperanças com tanta facilidade que foi como se seu rosto tivesse se transformado em um livro aberto.
– Não tome Cruzaboi muito a sério, senhora – disse-lhe num tom que não era desprovido de gentileza. – Uma batalha não é uma guerra, e o senhor meu pai certamente não é meu tio Stafford. Da próxima vez que visitar o bosque sagrado, reze para que seu irmão tenha a sensatez de dobrar o joelho. Assim que o norte voltar à paz do rei pretendo mandá-la para casa – Tyrion saltou do banco da janela e concluiu: – Pode dormir aqui esta noite. Darei alguns de meus homens como guarda, talvez alguns Corvos de Pedra…
– Não – Sansa exclamou, aterrorizada. Se ficasse trancada na Torre da Mão, guardada pelos homens do anão, como conseguiria Sor Dontos levá-la à liberdade?
– Prefere os Orelhas Negras? Posso lhe dar Chella, se uma mulher a fizer se sentir mais confortável.
– Por favor, não, senhor, os selvagens me assustam.
Ele sorriu.
– A mim também. Mas, o que é mais importante, assustam Joffrey e aquele ninho de víboras manhosas e cães aduladores que ele chama de Guarda Real. Com Chella ou Timett ao seu lado, ninguém se atreveria a lhe fazer mal.
– Preferia voltar à minha cama – Sansa lembrou-se subitamente de uma mentira, mas parecia tão
Tyrion Lannister estudou seu rosto:
– Não desconheço os pesadelos, Sansa. Talvez seja mais sensata do que eu pensava. Permita-me, pelo menos, escoltá-la em segurança de volta aos seus aposentos.
Catelyn
A noite já tinha caído por completo quando encontraram a aldeia. Catelyn deu por si querendo saber se o lugar teria nome. Se tivesse, seu povo levara consigo esse conhecimento, quando fugiu com todas as suas posses, incluindo até as velas do septo. Sor Wendel acendeu um archote e atravessou com ela a porta baixa.
Lá dentro, as sete paredes mostravam-se rachadas e tortas.
Catelyn estudou os desenhos. O Pai tinha barba, como sempre. A Mãe sorria, afetuosa e protetora. O Guerreiro tinha a espada esboçada sob o rosto, e o Ferreiro, o martelo. A Donzela era linda, a Velha, mirrada e sábia.
E o sétimo rosto… o Estranho não era nem homem nem mulher, mas ambos, o eterno pária, o vagabundo de lugares distantes, menos e mais que humano, desconhecido e impossível de conhecer. Ali, o rosto era oval e negro, uma sombra com estrelas no lugar dos olhos. Deixava Catelyn inquieta. Pouco conforto conseguiria ali.
Ajoelhou-se perante a Mãe.
– Senhora, olhe a batalha com os olhos de uma mãe. Todos eles são filhos, todos e cada um deles. Poupe-os se puder, e poupe meus filhos também. Proteja Robb, Bran e Rickon. Bem que eu gostaria de estar com eles.
Uma fenda corria através do olho esquerdo da Mãe, fazendo que parecesse estar chorando. Catelyn conseguia ouvir a voz trovejante de Sor Wendel, e de vez em quando as respostas calmas de Sor Robar, enquanto os homens conversavam sobre a batalha que se aproximava. Além deles, a noite estava silenciosa. Nem sequer se ouvia um grilo, e os deuses mantinham o silêncio.
A luz trêmula do archote dançava nas paredes, fazendo com que aqueles rostos parecessem estar semivivos, torcendo-se, alterando-se. As estátuas nos grandes septos das cidades tinham os rostos que os pedreiros lhes tinham dado, mas aqueles rabiscos a carvão eram tão rudimentares que podiam representar qualquer pessoa. O rosto do Pai levou Catelyn a pensar em seu próprio pai, morrendo em sua cama em Correrrio. O Guerreiro era Renly e Stannis, Robb e Robert, Jaime Lannister e Jon Snow. Até vislumbrou Arya naquelas feições, apenas por um instante. Então, uma rajada de vento que penetrou pela porta fez o archote crepitar, e a semelhança desapareceu, lavada num brilho cor de laranja.