Atravessaram em silêncio bosques esparsos em que as árvores se inclinavam ebriamente para longe do mar. Os relinchos nervosos dos cavalos e o tinir do aço guiou-os de volta ao acampamento de Renly. As longas fileiras de homens e cavalos estavam cobertas por uma armadura de escuridão, tão negra que era como se o Ferreiro tivesse martelado a própria noite para fabricar aço. Havia estandartes à sua esquerda e à direita, mas à luz que antecedia a alvorada, nem as cores nem os símbolos eram discerníveis.
As velas dentro do pavilhão de Renly faziam que as trêmulas paredes de seda parecessem brilhar, transformando a grande tenda num castelo mágico, insuflado de luz esmeralda. Dois dos membros da Guarda Arco-Íris estavam de sentinela à porta do pavilhão real. A luz verde brilhava de forma estranha através das plumas roxas da capa de Sor Parmen, e dava um tom doentio aos girassóis que cobriam cada polegada da armadura amarela esmaltada de Sor Emmon. Longas plumas de seda fluíam de seus elmos, e mantos de arco-íris envolviam seus ombros.
Lá dentro, Catelyn encontrou Brienne armando o rei para a batalha, enquanto Lorde Tarly e Rowan conversavam sobre a colocação dos homens no terreno e táticas. Estava um calor agradável lá dentro, proveniente de carvões em brasa numa dúzia de pequenos braseiros de ferro.
– Tenho de falar com o senhor, Vossa Graça – disse Catelyn, tratando-o como um rei, pela primeira vez, qualquer coisa para fazer com que prestasse atenção nela.
– Dentro de um momento, Senhora Catelyn – respondeu Renly. Brienne ajustou a placa das costas à placa de peito por cima da túnica acolchoada do rei. A armadura era de um verde profundo, o verde das folhas numa floresta estival, tão escuro que bebia a luz das velas. Realces dourados brilhavam em relevos e presilhas como fogueiras distantes nessa floresta, piscando sempre que ele se movia. – Por favor, prossiga, Lorde Mathis.
– Vossa Graça – disse Mathis Rowan, lançando um olhar de canto de olho para Catelyn. – Como estava dizendo, nossas batalhas estão bem delineadas. Por que esperar pelo nascer do dia? Faça soar a partida.
– Para dizerem depois que ganhei por meios traiçoeiros, com um ataque pouco cavaleiresco? A hora escolhida foi a alvorada.
– Escolhida por Stannis – ressaltou Randyll Tarly. – Quer que avancemos sob o sol nascente. Ficaremos meio cegos.
– Só até o primeiro embate – Renly respondeu com confiança. – Sor Loras quebrará suas linhas, e depois disso será o caos – Brienne apertou tiras de couro verde e prendeu fivelas douradas. – Quando meu irmão cair, assegurem-se de que nenhum insulto seja feito ao seu cadáver. Ele pertence ao meu sangue, não quero ver sua cabeça por aí, empalada na ponta de uma lança.
– E se ele se render? – Lorde Tarly quis saber.
– Render-se? – Lorde Rowan soltou uma gargalhada. – Quando Mace Tyrell montou cerco a Ponta Tempestade, Stannis preferiu comer ratazanas a abrir os portões.
– Bem me lembro – Renly ergueu o queixo para deixar que Brienne prendesse seu gorjal no lugar. – Perto do fim, Sor Gawen Wylde e três de seus cavaleiros tentaram se esgueirar por uma porta traseira, a fim de se render. Stannis pegou-os e ordenou que fossem atirados das muralhas com catapultas. Ainda vejo a cara de Gawen enquanto o amarravam. Era o nosso mestre de armas.
Lorde Rowan pareceu confuso.
– Ninguém foi atirado das muralhas. Eu certamente me lembraria de tal coisa.
– Meistre Cressen disse a Stannis que poderíamos ser forçados a comer nossos mortos, e não se ganhava nada em atirar fora boa carne – Renly puxou o cabelo para trás. Brienne atou-o com um fio de veludo e enfiou um capuz almofadado na cabeça dele, para amortecer o peso do elmo. – Graças ao Cavaleiro das Cebolas não acabamos reduzidos a comer cadáveres, mas estivemos perto disso. Perto demais para Sor Gawen, que morreu na cela.
– Vossa Graça – Catelyn tinha esperado pacientemente, mas o tempo escasseava. – Prometeu-me uma conversa.
Renly fez um aceno.
– Tratem de suas batalhas, senhores… Ah, e se Barristan Selmy estiver ao lado do meu irmão, quero-o poupado.
– Não há notícias de Sor Barristan desde que Joffrey o expulsou – retrucou Lorde Rowan.
– Eu conheço aquele velho. Precisa de um rei para defender, senão não sabe quem é. Mas nunca veio até mim, e a Senhora Catelyn diz que não está com Robb Stark em Correrrio. Onde mais estará a não ser com Stannis?