– Gelo não nos foi devolvida, senhora – disse Utherydes. – Só os ossos de Lorde Eddard.

– Suponho que deva agradecer à rainha até por isso.

– Agradeça ao Duende, senhora. Foi obra dele.

Um dia vou agradecer a todos eles.

– Estou grata por seus serviços, irmãs – Catelyn agradeceu –, mas devo atribuir-lhes outra tarefa. Lorde Eddard era um Stark, e seus ossos devem ser postos em repouso sob Winterfell – farão uma estátua dele, um retrato de pedra que se sentará no escuro com um lobo gigante aos pés e uma espada pousada nos joelhos. – Assegurem-se de que as irmãs tenham cavalos descansados, e qualquer outra coisa de que necessitem para a viagem – ela disse a Utherydes Wayn. – Hal Mollen vai escoltá-las de volta a Winterfell, é tarefa dele como capitão dos guardas – ela desceu os olhos para os ossos que eram tudo o que restava do seu senhor e amor. – Deixem-me agora, todos vocês. Desejo ficar a sós com Ned esta noite.

As mulheres de cinza inclinaram a cabeça. As irmãs silenciosas não falam com os vivos, recordou-se Catelyn, entorpecida, mas há quem diga que são capazes de falar com os mortos. E como invejava esse poder…

Daenerys

A s cortinas mantinham afastados a poeira e o calor das ruas, mas não conseguiam afastar o desapontamento. Dany subiu para o palanquim cansada, grata por aquele refúgio contra o mar de olhos qartenos.

– Abram alas – gritou Jhogo à multidão, de cima do cavalo, estalando o chicote. – Abram alas, abram alas para a Mãe de Dragões.

Reclinado em frescas almofadas de cetim, Xaro Xhoan Daxos despejou vinho da cor de rubi em cálices iguais de jade e ouro, com mãos seguras e firmes, apesar do balanço do palanquim.

– Vejo uma profunda tristeza escrita em seu rosto, minha luz do amor – ofereceu-lhe um cálice. – Seria a tristeza de um sonho perdido?

– De um sonho adiado, não mais do que isso.

O apertado colar de prata de Dany estava irritando sua garganta. Soltou-o e atirou-o para o lado. O colar tinha incrustada uma ametista encantada que Xaro jurava que a protegeria contra todos os venenos. Os Puronatos eram conhecidos por oferecer vinho envenenado àqueles que consideravam perigosos, mas não tinham dado a Dany sequer uma taça de água. Nunca viram em mim uma rainha, pensou amargamente. Fui apenas o divertimento de uma tarde, uma moça a cavalo com um curioso animal de estimação.

Rhaegal silvou e enterrou garras negras e afiadas em seu ombro nu quando Dany estendeu uma mão para aceitar o vinho. Retraindo-se, ela o transferiu para o outro ombro, onde ele podia espetar as garras no vestido em vez de na pele. Dany vestia-se à moda qartena. Xaro prevenira-a de que os Entronizados nunca escutariam uma dothraki, e ela teve o cuidado de ir à sua presença vestida de samito verde solto com um seio de fora, de sandálias prateadas nos pés, com um cinto de pérolas pretas e brancas em volta da cintura. Por toda a ajuda que me ofereceram, bem podia ter ido nua. Talvez devesse ter feito isso. Bebeu um profundo trago de vinho.

Descendentes dos antigos reis e rainhas de Qarth, os Puronatos comandavam a Guarda Cívica e a frota de ornamentadas galés que dominavam os estreitos entre os mares. Daenerys Targaryen desejara aquela frota, ou parte dela, e também alguns de seus soldados. Tinha feito o tradicional sacrifício no Templo da Memória, oferecido o tradicional suborno ao Guardião da Longa Lista, enviado o tradicional caqui ao Abridor da Porta, e por fim recebido os tradicionais chinelos de seda azul, convocando-a para comparecer ao Salão dos Mil Tronos.

Os Puronatos ouviram seus apelos de cima dos grandes tronos de madeira de seus ancestrais, que se erguiam em fileiras curvas do chão de mármore ao teto em cúpula alta pintado com cenas da glória desaparecida de Qarth. Os cadeirões eram imensos, fantasticamente esculpidos, brilhando com trabalhos em ouro e guarnecidos de âmbar, ônix, lápis-lazúli e jade, cada um diferente de todos os outros, e cada um tentando ser mais fabuloso que os demais. Mas os homens que neles se sentavam estavam tão apáticos e cansados do mundo que mais pareciam estar dormindo. Ouviram, mas não escutaram, nem se importaram, ela pensou. São mesmo Homens de Leite. Nunca tiveram a intenção de me ajudar. Vieram porque estavam curiosos. Vieram porque estavam entediados, e o dragão no meu ombro interessou-lhes mais do que eu.

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