– Conte-me as palavras dos Puronatos – sugeriu Xaro Xhoan Daxos. – Conte-me o que eles disseram para entristecer a rainha do meu coração.
– Disseram que não – o vinho tinha o sabor de romãs e dos dias quentes do Verão. – Disseram com grande cortesia, com certeza, mas por baixo de todas as palavras amáveis, foi mesmo assim um não.
– Bajulou-os?
– Desavergonhadamente.
– Chorou?
– O sangue do dragão não chora – Dany disse, já irritada.
Xaro suspirou.
– Devia ter chorado – os qartenos choravam com frequência e facilidade; isso era visto como uma marca do homem civilizado. – E os homens que compramos, o que disseram?
– Mathos não disse nada. Wendello elogiou meu modo de falar. O Requintado recusou-me como os outros, mas depois chorou.
– É uma infelicidade que esses qartenos sejam tão pouco confiáveis – o próprio Xaro não pertencia aos Puronatos, mas tinha lhe dito quem subornar e quanto oferecer. – Chore, chore, pela deslealdade dos homens.
Mais depressa Dany choraria por seu ouro. Os subornos que oferecera a Mathos Mallarawan, Wendello Qar Deeth e Egon Emeros, o Requintado, podiam ter servido para comprar um navio ou para contratar vinte mercenários.
– Suponhamos que eu mande Sor Jorah exigir a devolução de meus presentes? – ela perguntou.
– Suponhamos que um Homem Pesaroso venha ao meu palácio uma noite e a mate enquanto dorme – Xaro respondeu. Os Homens Pesarosos eram uma antiga e sagrada guilda de assassinos, assim chamados porque sempre sussurravam “lamento tanto” às vítimas antes de matá-las. Os qartenos não podiam ser acusados de não serem educados. – Há quem diga, sabiamente, que é mais fácil ordenhar a Vaca de Pedra de Faros do que espremer ouro dos Puronatos.
Dany não sabia onde ficava Faros, mas parecia-lhe que Qarth estava cheia de vacas de pedra. Os príncipes mercadores, extremamente enriquecidos pelo comércio entre os mares, encontravam-se divididos em três facções rivais: a Antiga Guilda das Especiarias, a Irmandade Turmalina e os Treze, aos quais Xaro pertencia. Todas rivalizavam entre si pelo domínio, e todas lutavam incessantemente com os Puronatos. E acima de todos havia os magos, com seus lábios azuis e terríveis poderes, raramente vistos, mas muito temidos.
Estaria perdida sem Xaro. O ouro que tinha esbanjado para abrir as portas do Salão dos Mil Tronos era, em boa medida, produto da generosidade e esperteza rápida do mercador. Enquanto o rumor sobre dragões vivos ia se espalhando pelo leste, cada vez mais curiosos tinham vindo saber se a história era verdadeira… e Xaro Xhoan Daxos assegurou-se de que tanto os grandes como os humildes oferecessem alguma lembrança à Mãe de Dragões.
O riacho que ele tinha começado rapidamente inchou e se transformou numa inundação. Capitães mercantes traziam renda de Myr, arcas de açafrão de Yi Ti, âmbar e vidro de dragão de Asshai. Os mercadores ofereciam sacos de moedas, os ourives, anéis e colares. Tocadores de flauta tocavam para ela, acrobatas faziam acrobacias, e malabaristas, malabarismos, enquanto tintureiros envolviam-na em cores que nunca soubera existir. Um par vindo de Jogos Nhai presenteou-a com um de seus zebralos listados, pretos e brancos, e ferozes. Uma viúva trouxe o cadáver do marido, coberto com uma crosta de folhas prateadas; acreditava-se que tais restos detinham grande poder, especialmente se o falecido tivesse sido um feiticeiro, como aquele. E a Irmandade Turmalina empurrou-lhe uma coroa trabalhada na forma de um dragão de três cabeças; os anéis eram de ouro amarelo, as asas, de prata, as cabeças, esculpidas em jade, marfim e ônix.
A coroa era a única oferenda que tinha guardado. O resto vendera, a fim de reunir a riqueza que desperdiçou nos Puronatos. Xaro quis também vender a coroa, os Treze iriam se assegurar que tivesse outra muito melhor, ele jurara, mas Dany proibira-o.
– Viserys vendeu a coroa da minha mãe, e os homens chamaram-no de pedinte. Eu guardarei esta, para que os homens me chamem de rainha – e foi o que fez, embora o peso fizesse seu pescoço doer.