Quando a escada de fogo chegou aos doze metros de altura, o mago saltou para ela e começou a subi-la, escalando com as mãos tão depressa como um macaco. Cada degrau que tocava dissolvia-se sem deixar mais que um fiapo de fumaça prateada. Quando chegou ao topo, a escada desapareceu, e ele também.
– Um belo truque – Jhogo afirmou com admiração.
– Não é um truque – disse uma mulher no Idioma Comum.
Dany não reparara em Quaithe entre a multidão, mas ali estava ela, com olhos úmidos e reluzentes por trás da implacável máscara de laca vermelha.
– Que quer dizer, senhora?
– Há meio ano, aquele homem mal conseguia despertar fogo em vidro de dragão. Possuía uma pequena habilidade com pós e fogovivo, o suficiente para fascinar a multidão enquanto seus batedores de carteira faziam seu trabalho. Conseguia caminhar sobre carvão quente e fazer com que rosas ardentes desabrochassem no ar, mas não podia aspirar a subir a escada de fogo mais do que um comum pescador podia ter esperança de pegar uma lula gigante em sua rede.
Dany olhou para onde estivera a escada, sentindo-se desconfortável. Até a fumaça tinha desaparecido agora, e a multidão dispersava-se, com cada homem indo tratar de seus assuntos. Dentro de mais um momento, alguns iriam encontrar as bolsas moles e vazias.
– E agora?
– E agora seus poderes crescem,
– Eu? – Dany riu. – Como assim?
A mulher se aproximou e encostou dois dedos no pulso de Dany.
– É a Mãe de Dragões, não é?
– É, e nenhum descendente das sombras pode tocá-la – Jhogo afastou seus dedos com o cabo do chicote.
A mulher deu um passo para trás.
– Deve deixar a cidade em breve, Daenerys Targaryen, senão, nunca lhe será permitido partir.
Dany ainda sentia um formigamento no pulso, no local onde Quaithe a tinha tocado.
– Para onde sugere que eu vá? – ela quis saber.
– Para ir ao norte, deve viajar para o sul. Para alcançar o oeste, tem de ir para o leste. Para ir em frente, deve voltar para trás, e para tocar a luz, tem de passar sob a sombra.
– Os asshai’i vão me dar um exército? – quis saber. – Haverá ouro para mim em Asshai? Haverá navios? O que há em Asshai que não posso encontrar em Qarth?
– A verdade – disse a mulher da máscara. E, com uma reverência, voltou a desaparecer na multidão.
Rakharo fungou de desprezo por trás de seus bigodes negros e pendentes.
–
– É sabido – Aggo concordou.
Xaro Xhoan Daxos tinha observado toda a conversa de cima de suas almofadas. Quando Dany voltou a subir para o palanquim a seu lado, disse:
– Seus selvagens são mais sábios do que julgam. Verdades como as que os asshai’i escondem não são do tipo que a fariam sorrir – então, obrigou-a a aceitar outra taça de vinho e tornou a falar de amor, luxúria e outras ninharias ao longo de toda a viagem de volta à mansão.
No sossego de seus aposentos, Dany despiu os adornos e envergou uma veste solta de seda púrpura. Os dragões estavam com fome, por isso cortou uma serpente e esturricou as fatias num braseiro.
Sor Jorah Mormont veio encontrá-la ao pôr do sol.
– Os Puronatos disseram-lhe que não?
– Tal como você disse que fariam. Venha, sente-se, dê-me seu conselho – Dany puxou-o para as almofadas a seu lado, e Jhiqui trouxe-lhes uma tigela de azeitonas roxas e cebolas marinadas em vinho.
– Não conseguirá ajuda nesta cidade,
– Xaro pediu-me de novo para casar com ele.
– Sim, e eu sei por quê – quando o cavaleiro franzia a testa, suas pesadas sobrancelhas juntavam-se por cima de seus olhos encovados.
– Ele sonha comigo, de dia e de noite – ela riu.
– Perdoe-me, minha rainha, mas é com os seus dragões que ele sonha.
– Xaro garante-me que em Qarth os homens e as mulheres mantêm suas propriedades depois de se casar. Os dragões são meus – Dany sorriu quando Drogon veio saltando e batendo as asas pelo chão de mármore para se aninhar na almofada ao seu lado.