O mais provável era que os Tyrell estivessem recusando o casamento proposto. Tyrion dificilmente podia culpá-los por isso.
A pequena frota estava bem adiante na baía quando Cersei indicou que era hora de partir. Bronn trouxe o cavalo de Tyrion e o ajudou a montar. Aquela tarefa era de Podrick Payne, mas o tinham deixado na Fortaleza Vermelha. O magro mercenário tinha uma presença mais tranquilizadora do que o rapaz.
As estreitas ruas eram defendidas por homens da Patrulha da Cidade, mantendo a multidão afastada com os cabos das lanças. Sor Jacelyn Bywater seguia à frente, encabeçando uma cunha de lanceiros a cavalo com cota de malha preta e manto dourado. Atrás dele vinham Sor Aron Santagar e Sor Balon Swann, transportando os estandartes do rei, o leão dos Lannister e o veado coroado dos Baratheon.
Rei Joffrey seguia-os num alto palafrém cinza, com uma coroa dourada pousada em seus caracóis dourados. Sansa Stark montava uma égua alazã a seu lado, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita, com o espesso cabelo ruivo fluindo até os ombros em uma rede de selenitas. Dois dos membros da Guarda Real flanqueavam o casal, Cão de Caça à direita do rei e Sor Mandon Moore à esquerda da menina Stark.
A seguir vinha Tommen, fungando, com Sor Preston Greenfield em sua armadura e manto brancos, e depois Cersei, acompanhada por Sor Lancel e protegida por Meryn Trant e Boros Blount. Tyrion ficou ao lado da irmã. Atrás deles seguia o Alto Septão em sua liteira, e uma longa comitiva de outros cortesãos: Sor Horas Redwyne, Senhora Tanda e a filha, Jalabhar Xho, Lorde Gyles Rosby e os outros. Uma dupla coluna de guardas fechava a retaguarda.
Os barbados e sujos fitavam os cavaleiros com um ressentimento embotado, do outro lado da linha de lanças.
Atravessaram a Praça dos Peixeiros e avançaram ao longo da Via Lamacenta antes de virar para o estreito e curvo Gancho e dar início à subida da Colina de Aegon. Algumas vozes começaram a gritar “
Com metade da viagem percorrida, uma mulher em prantos forçou a passagem por entre dois guardas e correu para a rua, à frente do rei e de seus companheiros, segurando o cadáver do bebê morto acima da cabeça. Estava azul e inchado, grotesco, mas o verdadeiro horror eram os olhos da mãe. Joffrey olhou-a por um momento como se quisesse atropelá-la, mas Sansa Stark debruçou-se e lhe disse qualquer coisa. O rei atrapalhou-se com a bolsa e atirou à mulher um veado de prata. A moeda quicou na criança e afastou-se rolando, passando por baixo das pernas dos homens de manto dourado, para o meio da multidão, onde uma dúzia de homens começou a lutar por ela. A mulher nem sequer piscou. Seus braços muito magros tremiam com o peso morto do filho.
– Deixe-a, Vossa Graça – Cersei gritou ao filho –, ela está para lá da nossa ajuda, coitada.
A mãe ouviu. De algum modo a voz da rainha abriu caminho através da inteligência devastada da mulher. Seu rosto descuidado contorceu-se com repugnância.
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Tyrion não chegou a ver quem atirou o esterco. Só ouviu o arquejo de Sansa e a praga berrada por Joffrey, e, quando virou a cabeça, o rei limpava sujeira marrom do rosto. Havia mais no seu cabelo dourado e salpicos pelas pernas de Sansa.
– Quem atirou isso? – Joffrey gritou. Levou os dedos ao cabelo, fez uma cara furiosa e atirou ao chão mais um punhado de bosta. – Quero o homem que atirou isso! – gritou. – Cem dragões de ouro para o homem que o denunciar.