– Não cheguei a vê-la – Cão de Caça passou os olhos pelo pátio, de cenho carregado. – Onde está o meu cavalo? Se aconteceu alguma coisa àquele cavalo, alguém vai ter de pagar.
– Ele veio correndo conosco durante algum tempo – Tyrion respondeu –, mas não sei o que houve depois disso.
–
Tyrion estava indizivelmente cansado, mas não havia
– Bronn, leve tantos homens quanto precisar e assegure-se de que os carros de água não sejam molestados –
Durante meio segundo, Tyrion pensou vislumbrar medo nos olhos escuros do Cão de Caça.
– Irei – ele concordou –, mas não por
Tyrion virou-se para os três cavaleiros restantes da Guarda Real.
– Cada um de vocês irá escoltar um arauto. Ordenem a todos que retornem às suas casas. Qualquer homem que for encontrado nas ruas depois do último repique do toque de anoitecer será morto.
– Nosso lugar é ao lado do rei – disse Sor Meryn com complacência.
Cersei empinou-se como uma víbora:
– Seu lugar é onde o meu irmão disser que é – ela cuspiu. – A Mão fala com a voz do rei, e desobediência é traição.
Boros e Meryn trocaram um olhar.
– Devemos usar nossos mantos, Vossa Graça? – Sor Boros perguntou.
– Por mim podem até ir nus. Isso talvez lembre à multidão que são homens. É provável que tenham se esquecido disso depois de verem o modo como se comportaram lá fora.
Tyrion deixou a irmã enfurecer-se. Sentia a cabeça latejando. Achava que conseguia sentir o cheiro de fumaça, embora talvez fosse apenas o odor de seus nervos desgastados. Dois dos Corvos de Pedra guardavam a porta da Torre da Mão.
– Vão atrás de Timett, filho de Timett.
– Os Corvos de Pedra não correm gritando atrás de Homens Queimados – informou-o um dos selvagens com altivez.
Por um momento, Tyrion tinha se esquecido de com quem lidava.
– Então vão atrás de Shagga.
– Shagga dorme.
Não gritar era um esforço.
– Acorde-o. Vá.
– Não é nada fácil acordar Shagga, filho de Dolf – o homem protestou. – Sua ira é temível – e foi embora resmungando.
O homem dos clãs entrou calmamente, bocejando e se coçando.
– Metade da cidade está amotinada, a outra metade está ardendo, e Shagga ronca – Tyrion o recebeu.
– Shagga não gosta da água lamacenta que aqui tem, por isso tem de beber da sua cerveja fraca e do seu vinho azedo, e depois a cabeça dói.
– Tenho Shae numa mansão perto do Portão de Ferro. Quero que vá até lá e a mantenha a salvo, aconteça o que acontecer.
O enorme homem sorriu, com os dentes transformados numa fenda amarela no território selvagem e peludo de sua barba.
– Shagga vai trazê-la para cá.
– Somente assegure-se de que nenhum mal lhe aconteça. Diga-lhe que irei encontrá-la assim que puder. Talvez ainda esta noite, ou com certeza amanhã.
Mas, ao cair da noite, a cidade continuava em tumulto, embora Bronn relatasse que os incêndios tinham sido apagados e que a maior parte dos grupos errantes tinha se dispersado. Por mais que Tyrion ansiasse pelo conforto dos braços de Shae, compreendeu que naquela noite não iria a lugar nenhum.
Sor Jacelyn Bywater entregou a fatura do carniceiro enquanto Tyrion jantava capão frio e pão de centeio entre as sombras de seu aposento privado. Àquela altura, o ocaso já havia se transformado em trevas, mas quando os criados vieram acender suas velas e um fogo na lareira, Tyrion rugira e os pusera para correr. Seu humor estava tão negro como o aposento, e Bywater não disse nada que o iluminasse.
A lista dos mortos era encabeçada pelo Alto Septão, destroçado enquanto gritava aos seus deuses por misericórdia.
O cadáver de Sor Preston, a princípio, não tinha sido notado; os homens de manto dourado tinham andado à procura de um cavaleiro em armadura branca, mas ele havia sido tão cruelmente apunhalado e golpeado que estava vermelho-amarronzado da cabeça aos pés.
Sor Aron Santagar tinha sido encontrado numa sarjeta, com a cabeça transformada numa polpa vermelha dentro de um elmo esmagado.
A filha da Senhora Tanda cedera sua virgindade a meia centena de homens aos gritos atrás de uma tanoaria. Os homens de manto dourado tinham-na encontrado vagueando, nua, pelo Quarteirão do Porco Salgado.