– Ah, sim, o rei... Meu sobrinho não é capaz de se sentar numa latrina, quanto mais no Trono de Ferro.

Varys encolheu os ombros:

– Deve-se ensinar o ofício a um aprendiz.

– Metade dos aprendizes da Alameda dos Vapores conseguiriam governar melhor do que esse seu rei – Bronn sentou-se do outro lado da mesa e arrancou uma asa do capão.

Tyrion tinha desenvolvido o hábito de ignorar as frequentes insolências do mercenário, mas naquela noite achava-as vexatórias.

– Não me lembro de lhe dar licença para acabar meu jantar.

– Não parecia estar comendo – Bronn respondeu com a boca cheia de carne. – A cidade passa fome, desperdiçar comida é um crime. Tem vinho?

A seguir vai querer que o sirva, pensou Tyrion sombriamente.

– Você vai longe demais – preveniu-o.

– E você nunca vai longe o suficiente – Bronn atirou, com fúria, o osso da asa. – Já pensou em como a vida seria fácil se o outro tivesse nascido primeiro? – enfiou os dedos no capão e arrancou um pedaço de peito. – O chorão, Tommen. Parece que faria tudo o que lhe dissessem, como um bom rei devia fazer.

Um arrepio desceu pela espinha de Tyrion quando compreendeu o que o mercenário estava sugerindo. Se Tommen fosse rei…

Só havia uma maneira de Tommen se tornar rei. Não, nem podia pensar nisso. Joffrey pertencia ao seu sangue, e era tanto filho de Jaime como de Cersei.

– Podia mandar decapitá-lo por dizer isso – disse a Bronn, mas o mercenário limitou-se a rir.

– Amigos – disse Varys –, discussões de nada nos servem. Peço a ambos, ponham o coração nas mãos.

– O coração de quem? – Tyrion perguntou com amargura. Conseguia pensar em várias hipóteses tentadoras.

Davos

Sor Cortnay Penrose não usava armadura. Montava um garanhão alazão, e seu porta-estandartes, um cinza sarapintado. Por cima deles esvoaçavam o veado coroado de Baratheon e as penas cruzadas de Penrose, brancas em fundo ferrugem. A barba de Sor Cortnay, em forma de pá, era também cor de ferrugem, embora ele tivesse se tornado completamente calvo. Se o tamanho e esplendor do grupo do rei o impressionava, não o demonstrava naquele rosto desgastado.

Aproximaram-se a trote, com muito tinir de cotas de malha e chocalhar de placas de armadura. Até Davos usava cota de malha, embora não pudesse explicar por quê; seus ombros e o lombo doíam devido ao peso pouco habitual. Fazia-o sentir-se oprimido e tolo, e perguntou uma vez mais a si mesmo por que motivo estava ali. Não me cabe questionar as ordens do rei, e, no entanto…

Todos os membros do grupo eram de melhor nascimento e posição mais elevada do que Davos Seaworth, e os grandes senhores cintilavam ao sol da manhã. Aço prateado e relevos de ouro abrilhantavam suas armaduras, e seus elmos de guerra eram ornamentados com uma profusão de plumas de seda, penas e animais heráldicos destramente trabalhados com olhos de pedras preciosas. O próprio Stannis parecia deslocado naquela companhia rica e régia. Tal como Davos, o rei vinha simplesmente vestido de lã e couro fervido, embora o diadema de ouro vermelho que emoldurava suas têmporas lhe emprestasse uma certa grandeza. A luz do sol relampejava nas pontas em forma de chama sempre que ele movia a cabeça.

Aquilo era o mais perto que Davos havia chegado de Sua Graça nos oito dias que se passaram desde que o Betha Negra tinha se juntado ao resto da frota ao largo de Ponta Tempestade. Pedira audiência menos de uma hora depois de ter chegado, mas foi informado de que o rei estava ocupado. Ele estava frequentemente ocupado, soube Davos pelo filho Devan, um dos escudeiros reais. Agora que Stannis Baratheon tinha assumido o poder, os fidalgos zumbiam ao seu redor como moscas em torno de um cadáver. E ele também parece meio cadavérico, anos mais velho do que quando parti de Pedra do Dragão. Devan dizia que nos últimos tempos o rei quase não dormia.

– Desde que Lorde Renly morreu, tem sido perturbado por pesadelos terríveis – o rapaz tinha confidenciado ao pai. – As poções do meistre não lhe afetam. Só a Senhora Melisandre consegue acalmá-lo o suficiente para voltar ao sono.

Será por isso que ela divide agora seu pavilhão?, perguntou-se Davos. Para rezar com ele? Ou será que tem outra maneira de acalmá-lo o suficiente para voltar ao sono? Era uma pergunta indigna, que não se atrevia a fazer, mesmo ao seu próprio filho. Devan era um bom rapaz, mas usava orgulhosamente o coração flamejante no gibão, e o pai vira-o junto às fogueiras ao pôr do sol, implorando ao Senhor da Luz que trouxesse a alvorada. Ele é o escudeiro do rei, disse a si mesmo, era de esperar que adotasse o deus do rei.

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