Davos quase tinha se esquecido de como as muralhas de Ponta Tempestade se erguiam altas e espessas quando vistas de perto. Rei Stannis parou à sombra delas, a pouco mais de um metro de Sor Cortnay e de seu porta-estandarte.
– Sor – ele disse com rígida cortesia. Mas não fez nenhum movimento para desmontar.
– Senhor – aquilo era menos cortês, mas não inesperado.
– É costume tratar um rei por
Sor Cortnay Penrose ignorou-o, preferindo se dirigir a Stannis.
– Esta é uma notável companhia. Os grandes senhores Estermont, Errol e Varner. Sor Jon dos Fossoway da maçã verde e Sor Bryan da vermelha. Lorde Caron e Sor Guyard da Guarda Arco-Íris do Rei Renly…
– Meu nome é Melisandre, sor – só ela tinha vindo sem outra armadura além de suas soltas vestes vermelhas. Na garganta, o rubi vermelho bebia a luz do dia. – Sirvo ao seu rei e ao Senhor da Luz.
– Desejo-lhe felicidades com eles, senhora – Sor Cortnay respondeu. – Mas curvo-me perante outros deuses e um rei diferente.
– Não há mais do que um rei verdadeiro e um deus verdadeiro – anunciou Lorde Florent.
– Estamos aqui para discutir teologia, senhor? Se soubesse, teria trazido um septão.
– Sabe perfeitamente bem por que motivo estamos aqui – Stannis finalmente falou. – Teve uma quinzena para refletir sobre a minha proposta. Enviou seus corvos. Nenhuma ajuda veio. Nem virá. Ponta Tempestade está sozinha, e já não tenho paciência. Pela última vez, sor, ordeno-lhe que abra os portões, e me entregue o que é legitimamente meu.
– E as condições? – Sor Cortnay quis saber.
– Permanecem as mesmas. Vou perdoá-lo por sua traição, assim como perdoei estes senhores que vê atrás de mim. Os homens de sua guarnição serão livres para entrar ao meu serviço ou para voltar às suas casas sem ser incomodados. Pode conservar suas armas e tanta propriedade quanto um homem for capaz de transportar. No entanto, necessitarei de seus cavalos e animais de carga.
– E quanto a Edric Storm?
– O bastardo do meu irmão deve ser entregue a mim.
– Neste caso, minha resposta continua a ser não, senhor.
O rei apertou o maxilar. E nada disse.
Em seu lugar, foi Melisandre quem falou:
– Que o Senhor da Luz o proteja na escuridão, Sor Cortnay.
– Que os Outros comam o cu do seu Senhor da Luz – cuspiu Penrose de volta –, e limpem-no com esse trapo que você transporta.
Lorde Alester Florent pigarreou:
– Sor Cortnay, tenha tento na língua. Sua Graça não deseja nenhum mal ao rapaz. O garoto é do seu sangue, e também do meu. A mãe foi minha sobrinha Delena, como todos sabem. Se não confia no rei, confie em mim. Conhece-me como um homem de honra…
– Conheço-o como um homem de ambição – Sor Cortnay o interrompeu. – Um homem que troca de reis e de deuses como eu troco de botas. Tal como esses outros vira-casacas que vejo à minha frente.
Um clamor irado ergueu-se entre os homens do rei.
Bryce Caron fez o cavalo avançar alguns passos, com o longo manto listrado de arco-íris retorcendo-se sob o vento vindo da baía.
– Nenhum homem aqui é um vira-casaca, sor. Minha lealdade pertence a Ponta Tempestade, e Rei Stannis é o seu senhor legítimo…
– Se é assim, por que o Cavaleiro das Flores não está entre vocês? E onde está Matthis Rowan? Randyll Tarly? A Senhora Oakheart? Por que eles não se encontram aqui em sua companhia, aqueles que mais amavam Renly?
– Essa? – Sor Guyard Morrigen soltou uma gargalhada dura. – Fugiu. E foi o que lhe valeu. Foi dela a mão que matou o rei.