Nessa altura, um dos cães tinha erguido a cabeça e rosnado, e Jon tivera de se afastar rapidamente, antes de ser visto.
Jon tirou seu novo punhal da bainha e estudou as chamas que brincavam no brilhante vidro negro. Ele próprio havia esculpido o cabo de madeira, e tinha enrolado barbante de cânhamo à sua volta para fazer um punho. Era feio, mas servia. Edd Doloroso opinara que as facas de vidro tinham a mesma utilidade de mamilos na placa de peito de um cavaleiro, mas Jon não tinha tanta certeza. A lâmina de vidro de dragão era mais afiada do que aço, apesar de muito mais quebradiça.
Também tinha feito um punhal para Grenn, e outro para o Senhor Comandante. A Sam dera o corno de guerra. Sob um exame mais cuidadoso, o corno mostrou-se rachado, e mesmo depois de ter sacudido toda a terra que tinha dentro, Jon fora incapaz de arrancar algum som dele. A borda também estava lascada, mas Sam gostava de coisas velhas, mesmo que sem utilidade.
– Faça dele um corno para beber – Jon lhe dissera. – E toda vez que tomar uma bebida, vai se lembrar de como saiu em patrulha para lá da Muralha e visitou o Punho dos Primeiros Homens – também dera a Sam uma ponta de lança e uma dúzia de pontas de flecha, e distribuíra o resto entre os outros amigos, para lhes dar sorte.
O Velho Urso pareceu ter ficado contente com o punhal, mas Jon reparou que ele preferia ter uma faca de aço ao cinto. Mormont não conseguia sugerir respostas quanto a quem poderia ter enterrado o manto, ou o que isso poderia significar.
– Quer servir, ou sirvo eu?
Jon embainhou o punhal.
– Eu cuido disso – queria ouvir o que eles estavam dizendo.
Edd cortou três grossas fatias de um pão de aveia duro, empilhou-as numa bandeja de madeira, cobriu-as com bacon e sua gordura derretida, e encheu uma tigela com ovos cozidos. Jon pegou a tigela com uma mão e a bandeja com a outra e entrou de ré na tenda do Senhor Comandante.
Qhorin estava sentado no chão, de pernas cruzadas, com a coluna reta como uma lança. A luz das velas tremeluzia nas superfícies duras e planas de seu rosto quando falava.
– … Camisa de Chocalho, Homem Choroso, e todos os outros chefes, grandes e pequenos – ele estava dizendo. – Também têm
– Verdade ou mentira, a Muralha tem de ser avisada – disse o Velho Urso enquanto Jon colocava a bandeja entre os dois. – E o rei.
– Qual rei?
– Todos. Tanto o verdadeiro como os falsos. Se querem reclamar o reino, que o defendam.
Meia-Mão serviu-se de um ovo e quebrou sua casca na borda da tigela.
– Esses reis farão o que quiserem – ele respondeu, descascando o ovo. – O mais provável é que não seja grande coisa. A melhor esperança é Winterfell. Os Stark têm de convocar o Norte.
– Sim. Com certeza – o Velho Urso desenrolou um mapa, olhou-o de testa franzida, colocou-o de lado, e abriu outro. Jon percebeu que ele estava avaliando onde o martelo cairia. Antigamente, a Patrulha havia guarnecido dezessete castelos ao longo das cem léguas da Muralha, mas tinham sido abandonados, um por um, à medida que a irmandade minguava. Só três possuíam guarnições agora, um fato que Mance Rayder conhecia tão bem como eles. – Podemos ter esperança de que Sor Alliser Thorne traga recrutas frescos de Porto Real. Se levarmos a Guardagris homens da Torre Sombria, e a Monte Longo o pessoal de Atalaialeste…
– Guardagris ruiu em grande parte. Portapedra servirá melhor, se conseguirmos arranjar homens suficientes. Talvez também Marcagelo e Lago Profundo. Com patrulhas diárias ao longo das ameias entre eles.