Nessa noite, o castelo ressoou com o ruído dos festejos. “Correrrio!”, gritavam os plebeus, e “Tully! Tully!”. Tinham chegado assustados e impotentes, e seu irmão os acolhera em circunstâncias em que a maior parte dos senhores teria trancado os portões. Suas vozes entravam pelas altas janelas e esgueiravam-se sob as pesadas portas de pau-brasil. Rymond tocou sua harpa, acompanhado por um par de percussionistas e um jovem com um conjunto de flautas de bambu. Catelyn ouviu risos de meninas, e a excitada tagarelice dos garotos inexperientes que o irmão lhe deixara fazendo as vezes de guarnição. Sons bons… e, no entanto, não a tocaram. Não conseguia partilhar a felicidade deles.

No aposento privado do pai encontrou um pesado livro de mapas encadernado em couro, e o abriu nas terras fluviais. Seus olhos encontraram o trajeto do Ramo Vermelho e seguiram-no à luz tremeluzente de uma vela. Marchando para sudeste, pensou. Àquela altura, teriam sem dúvida atingido a nascente da Torrente da Água Negra, concluiu.

Fechou o livro ainda mais intranquila do que antes. Os deuses tinham lhes dado vitória atrás de vitória. No Moinho de Pedra, em Cruzaboi, na Batalha dos Acampamentos, no Bosque dos Murmúrios…

Mas se estamos ganhando, por que tenho tanto medo?

Bran

O som foi o mais tênue dos clincs, um raspar de aço em pedra. Levantou a cabeça das patas, escutando, farejando a noite.

A chuva do anoitecer tinha despertado uma centena de cheiros adormecidos, tornando-os de novo maduros e fortes. Grama e espinheiros, amoras silvestres rachadas no chão, lama, minhocas, folhas apodrecendo, uma ratazana que se arrastava pelos arbustos. Detectou o odor negro e felpudo da pelagem do irmão e o forte e penetrante cheiro acobreado do esquilo que tinha matado. Outros esquilos deslocavam-se pelos galhos sobre a sua cabeça, cheirando a pelo molhado e a medo, raspando a casca das árvores com suas pequenas garras. O barulho soara um pouco como aquilo.

Voltou a ouvi-lo, clinc, e raspar. Aquele som fê-lo levantar-se. As orelhas espetaram-se e a cauda se ergueu. Uivou, um grito longo, profundo e tremente, um uivo para acordar os adormecidos, mas as pilhas de rocha do homem estavam escuras e mortas. Uma noite parada e úmida, uma noite daquelas que empurram os homens para dentro de seus buracos. A chuva tinha parado, mas os homens ainda se escondiam da umidade, amontoados junto aos fogos em suas cavernas de pedra empilhada.

O irmão chegou, deslizando por entre as árvores, deslocando-se quase tão silenciosamente como outro irmão de que tinha uma vaga lembrança, de muito tempo atrás, o que era branco com olhos de sangue. Os olhos deste eram lagoas de sombras, mas o pelo na parte de trás do pescoço estava eriçado. Também tinha ouvido os sons, e compreendia que significavam perigo.

Dessa vez, o clinc e o raspar foram seguidos por um som de arrastar e pelas batidas rápidas e suaves de pés descalços em pedra. O vento trouxe a mais ligeira lufada de um cheiro de homem que não conhecia. Estranho. Perigo. Morte.

Correu na direção do som, com o irmão correndo a seu lado. As tocas de pedra ergueram-se à frente deles, com paredes escorregadias e úmidas. Mostrou os dentes, mas o homem de rocha não ligou para ele. Um portão erguia-se até bem alto, com uma serpente de ferro preta enrolada em volta de barras e do umbral. Quando se atirou contra o portão, ele estremeceu e a serpente tiniu, deslizou e aguentou. Através das barras conseguia olhar pela longa cova de pedra que corria entre os muros até o campo pedregoso que ficava na outra ponta, mas não havia forma de passar. Podia forçar o focinho entre as barras, mas nada mais do que isso. Muitas tinham sido as vezes que o irmão tentara quebrar entre os dentes os ossos negros do portão, mas estes não se partiam. Tinham tentado escavar por baixo deles, mas havia aí grandes pedras planas, meio cobertas por terra e folhas caídas.

Rosnando, começou a andar de um lado para o outro diante do portão, e depois atirou-se de novo contra ele. Moveu-se um pouco e o atingiu. Trancado, alguma coisa sussurrou. Acorrentado. A voz que não ouvia, o odor sem cheiro. As outras passagens também estavam fechadas. Onde se abriam portas nos muros de rocha do homem, a madeira era grossa e forte. Não existia saída.

Existe, disse o sussurro, e pareceu poder ver a sombra de uma grande árvore coberta de agulhas, nascendo inclinada da terra negra e elevando-se até dez vezes a altura de um homem. Mas, quando olhou em volta, não estava lá. Do outro lado do bosque sagrado, a árvore sentinela, rápido, rápido…

Através das sombras da noite chegou um grito abafado, abruptamente interrompido.

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