O professor Markopoulou regressou às palavras de ordem com vigor renovado e Tomás calou-se, na esperança de que se cansasse em breve e saíssem enfim dali para retomar a investigação. Achava que era muito importante verificar se havia mais manuscritos na câmara onde fora detectado o documento que lera no Museu Arqueológico e sentia-se levemente irritado com o activismo político do colega, que lhe parecia deslocado para quem tinha responsabilidades académicas.

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Quando a sua mente divagava já sobre a possibilidade de vir a encontrar alguns dos livros perdidos dos Avestá, e em particular o Spend Nask, que lhe daria acesso a uma mina de informação biográfica desconhecida sobre Zoroastro, a sua atenção desviou-se quase inadvertidamente para um grupo de homens que avançava como uma corrente forte no meio da manifestação.

As máscaras que lhes cobriam o rosto pareceram-lhe estranhas e levou algum tempo a reconhecê-las; eram dispositivos antigás, com tubos a saírem da zona da boca como focinhos de porcos. As máscaras encontravam-se já devidamente encaixadas nos rostos e os homens transportavam nas mãos tacos de madeira e garrafas de cerveja e Coca-Cola com panos molhados a espreitarem dos gargalos; delas saía um forte odor a gasolina. A certa altura foram desfraldadas bandeiras alemãs e os recém-chegados acocoraram-se junto à berma.

Enquanto uns se puseram a arrancar pedras da calçada, outros acendiam os isqueiros e colavam as chamas violáceas aos panos inseridos nos gargalos das garrafas. Depois ergueram-se como se obedecessem a uma só voz. Alguns apontaram os isqueiros às bandeiras alemãs e incendiaram-nas perante a euforia aprovadora da multidão, mas o clamor mudou de tom quando outros manifestantes começaram a atirar as pedras contra as vitrinas das lojas e a lançar as garrafas em fogo na direcção da sucursal de um banco.

"Cuidado!", gritou Tomás, puxando o professor Markopoulou pelo braço. "Já viu o que aqueles tipos estão a fazer?"

Uma vozearia assustada ergueu-se da multidão e os manifestantes começaram a correr em várias direcções. As labaredas alastraram rapidamente pela fachada do banco e pelo interior; algumas pessoas apanhadas nas instalações atravessaram em corrida a barreira de fogo para a rua, mas atrás delas ouviam-se gritos de aflição.

"Está gente lá dentro!", constatou o arqueólogo grego. "Meu Deus, eles não conseguem sair!"

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Tomás observava a cena embasbacado, vendo e sem acreditar.

A cena adquiria tons de irrealidade, parecia que a rua era uma plateia e a fachada incandescente a tela; só assim se explicava a incrível impunidade com que o grupo de manifestantes mascarados lançara cocktails Molotov contra o edifício e provocara um incêndio daquela magnitude. Eram decerto actores a interpretar uma cena, não podia ser outra coisa.

As palavras do professor Markopoulou e os gritos que vinham do interior do banco, no entanto, funcionaram como uma estalada que o trouxe de volta à realidade; aquilo não era cinema, estava mesmo a acontecer. Ao aceitar como verdadeiro o que testemunhava e ao aperceber-se de que havia gente encurralada no edifício em chamas, sentiu-se por fim impulsionado para a acção.

"Vamos''

O corpo pôs-se em movimento quase sem precisar de autorização da cabeça, como se o coração tivesse contornado a razão. Aproximou-se de um dos manifestantes que atirara cocktails Molotov e desferiu-lhe um violento murro nos rins que o deixou momentaneamente knockout.

O homem caiu de joelhos e rebolou pelo chão com dores. Com um gesto rápido, Tomás arrancou-lhe a máscara antigás e assentou-a na sua própria face.

"O que diabo está a fazer?", admirou-se o professor Markopoulou, estarrecido com a acção do colega português. "Está maluco ou quê?"

Ignorando o arqueólogo, o historiador arrancou o casaco do manifestante que se contorcia por terra e pegou nele como se fosse um escudo. Inspirou fundo, os olhos fixados na entrada do edifício em chamas, e recuou num passo para ganhar balanço.

"Não faça isso!", insistiu o grego, interpondo-se no caminho para evitar o pior. "É uma loucura! Ainda vai morrer!"

Enchendo-se de coragem, ou talvez dominado pela mais completa 34

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